Guru e Empresário

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O Estranho Cliente

Resumo do episódio anterior (1):
Enquanto o misterioso narrador preferiu manter-se na empresa onde sempre trabalhara (por se tratar de uma empresa-modelo), o seu amigo Januário, farto do emprego onde se sentia definhar de dia para dia, resolveu estabelecer-se por conta própria.
Achando-se um cérebro brilhante em ideias e negócios, abriu uma startup, tomando de trespasse a loja onde em tempos florescera a empresa do famoso Sr. Oliveira (2).
Agora Januário vende conselhos, palpites e ideias; e acarinha gestores em dificuldades, como hoje se verá...


Estava eu um dia na paragem do autocarro, a recapitular tudo o que se passara e atrás se contou, quando aconteceu uma coisa que afinal até era previsível:

O Januário, do outro lado da rua, dizia-me adeus! Ou melhor: encostara o carro, (3) ignorando o sinal de proibição, e chamava-me. Um pouco contrariado aceitei correr o risco de perder o meu lugar na fila e lá fui ter com ele.
Mas até se passou uma coisa curiosa que merece que se faça aqui um pequeno desvio na narrativa:
Havia uma simpática senhora, uma tal D. Rosa, profissional da limpeza, que, desde que me lembro, nos fazia companhia na paragem (4).
Ora a D. Rosa, que se gabava de ser especialista em lições de vivência, costumava acompanhar com particular interesse as conversas entre mim e o Januário. E não foi uma vez nem duas que ela fez batota na fila para passar à frente de outros passageiros e se aproximou de nós para coscuvilhar descaradamente.
E a coisa, à força do hábito, já nos parecia de tal forma natural que por vezes a envolvíamos nas nossas conversas e nos nossos pequenos dramas!
E ela, mesmo sem ninguém lha pedir, lá dava a sua opinião!
Ao princípio essas interrupções irritavam-nos. Mas, pelo menos eu, comecei, e a partir de certa altura, a encarar a questão de outra forma:
A D. Rosa era uma espécie de contraponto da parvoíce, um pequeno balde de água fria com o tempero do senso-comum. Mas, e acima de tudo, tinha a virtude imensa de cortar o ritmo das queixas do Januário que, se deixadas à solta no seu crescendo galopante, acabavam inevitavelmente por se traduzir em pontapés demolidores no poste da paragem como descarga emocional.
Portanto não será de admirar se vos disser que a D. Rosa começou por estranhar as ausências do Januário desde o momento em que ele se estabeleceu por conta própria, e não descansou enquanto não soube, tim-tim-por-tim-tim tudo o que se tinha passado ou estava a passar…
Ao vê-lo a acenar-me incluiu-se no destino da saudação, correspondeu e determinou prontamente:
- Vá lá ver o que é que o nosso amigo quer, que eu guardo-lhe o lugar na bicha e você não perde a vez.
E, olhando em volta, desafiou as restantes pessoas a manifestarem opinião contrária.
Eu não me detive a pensar porque é que ela chamava bicha aquilo que agora se chama fila, nem a matutar de onde é que lhe vinha a confiança para se referir ao Januário naqueles termos.
Na realidade só me preocupei em atravessar a rua sem ser atropelado e ir ver o que é que fazia com que o homem parasse o carro, ali num sítio proibido, só para me dizer qualquer coisa.
E nem sequer seria para me dar boleia, pois ia no sentido contrário e quase de certeza a caminho da sua nova empresa e não daquela em que eu trabalhava.
Cumprimentou-me à pressa, abriu a porta do lado do passageiro, e fez-me entrar para o carro, quase me sugando para o interior.
- Mexe-te! Anda daí! Se te cortarem o dia não te importes, que eu pago-te o dobro do que te possam descontar no ordenado!
E acelerou pela rua acima, sem mais explicações, embora tenha ainda dedicado um pouco da sua atenção e um simpático aceno à D. Rosa…

***

Chegámos muito cedo ao escritório dele.
O facto de trabalhar agora por conta própria não lhe reduzira as horas de trabalho - antes pelo contrário! - mas não parecia queixar-se, nem mesmo quando o Malaquias apareceu, sorridente, a fazer-se à gorjeta mal-merecida.
- Tenho raiva destes arrumadores! - Comentei, logo que pude.
- Pois eu não… - foi a estranha resposta que me deu, enquanto abria a porta da loja. - e um dia destes vais perceber porquê…
Entrei, pousei a pasta no chão e fiquei a olhar à volta, a ver se haveria mais algumas novidades no aspecto de arrumação ou de decoração da sala.
A única coisa que me chamou a atenção foram três pequenos projectores montados discretamente em outros tantos pequenos tripés.
Ao ver o meu interesse neles, explicou:
- São os criadores de ambiente personalizado. A primeira coisa que preciso de fazer para ter sucesso no meu trabalho é, sempre que possível, conhecer o cliente ainda antes de ele aqui entrar. Depois, e conforme os resultados desse trabalho de pesquisa, assim programo os projectores para mostrarem nas paredes as imagens correspondentes ao ambiente que quero criar.
E, aproximando-se de uma pequena consola até aí despercebida, carregou em algumas teclas e manipulou alguns botões.
Fiquei extasiado!
A sala obscureceu-se progressivamente, e os projectores acenderam-se ao mesmo tempo, fazendo aparecer imagens que mais pareciam objectos reais!
- O cliente senta-se aqui no cadeirão, ao pé de mim, exactamente no centro da sala. E, se eu tiver preparado tudo como deve ser, ele sente-se imediatamente bem disposto e, por assim dizer, em casa.
E concretizou:
- Por exemplo: um dia destes apareceu-me aqui um gestor de meia-idade a pedir-me conselho. Pelo que vim a perceber passava-se o seguinte...
O Januário sentou-se, olhou em volta para se certificar que o ambiente era propício à explicação que pretendia dar, e prosseguiu:
- Em tempos recuados, quando já toda a gente, por essas empresas fora, usava computadores, na empresa dele isso ainda era muito raro. E o problema do homem era que, à medida que o tempo passava, a situação piorava, e as pessoas começavam a exigir essas maquinetas. Ora ele achava que era uma parvoíce... que sempre se tinha trabalhado sem computadores... - estás a ver o género de pessoa, não estás? - pelo que, e em resumo, ele me pedia uma solução para o seu caso, numa perspectiva empresarial progressiva…
- E tu o que fizeste?
- Ao princípio dei-lhe um certo desconto, pois pensei que estava apenas perante mais um dos inúmeros gestores inforfóbicos responsáveis pelo atraso tecnológico do nosso país no aspecto digital. Mas, quando ele me disse que trabalhava numa empresa técnica - onde até era um alto responsável - a coisa mudou de figura! Tratava-se de uma questão grave e difícil de resolver, pois ele nunca iria aceitar a solução mais óbvia e simples: abrir os olhos para a realidade e informatizar a empresa rapidamente…
- Então e tu... o que fizeste?
- Nestas coisas, fico sempre indeciso... nunca sei se hei-de albardar o dono à vontade do burro ou o contrário... Mas depois de confirmar tudo o que te contei, e tendo analisado os factos até ao mais ínfimo e caricato pormenor, marquei a segunda entrevista. E, com a ajuda desta maravilha tecnológica que são estes projectores, criei o ambiente apropriado: máquinas de Telex, faxes obsoletos, telefones de manivela, teias de aranha, montes de livros sobre "o lado negro da Internet", e coisas assim…
- E depois?!
- Depois, confirmei que o homem se estava nas tintas para a formação do seu pessoal e para a modernização da empresa e só queria era desabafar! Como cada vez havia menos gente a pensar como ele, passou a pagar-me só para ter o prazer de vir aqui uma vez por semana, contemplar estas teias de aranha tecnológicas e ouvir-me debitar baboseiras e lugares-comuns contra os perigos do Novo Mundo Digital, o que aprendi a fazer lendo umas coisas que há para aí...
- E porque é que me chamaste aqui hoje?!
- Porque o nosso amigo deve estar aí a chegar…
- E o que é que eu posso fazer?!
- Muito simples: o homem sofre muito, só de pensar que qualquer dia pode vir a ser o único gestor inforfóbico português. E eu sossego-o, dizendo que há muitos, muitos mais. É aí que tu entras...
Eu começava a perceber a ideia...
O Januário prosseguiu, limitando-se a fazer luz onde, afinal, já poucas trevas havia:
- Quando eu estiver a ouvi-lo, vais entrar por aqui adentro, como se fosses um cliente em pânico, e vais gritar qualquer coisa do tipo: «Sr. Januário! Venha depressa! Há uns gajos que querem instalar a Internet na minha empresa! Preciso que vá lá, com urgência, fazer uma palestra sobre os perigos da Sociedade da Informação! Todos sabemos que o senhor é o maior especialista na matéria!»
- Só isso?!
- Sim, e não é nada pouco, se o conseguires fazer sem te rires. Achas que és capaz?
De facto, custou, mas consegui.
E ainda incluí na cena, à laia de introdução, uns desesperados toques na campainha, umas pancadas desaustinadas na porta e um tom gaguejante na voz...
O Januário fez-se muito espantado, recebeu-me com elevadíssima deferência, tentou acalmar-me, e por fim apresentou-me ao outro cavalheiro como sendo eu um gestor de alto gabarito que pretendia permanecer incógnito.
Depois pediu-lhe licença para interromper a sessão em curso para poder atender o meu caso, que reputou de manifestamente preocupante, urgente e grave…
Mas, tal como previra, o outro, longe de se importar, declarou que nunca se sentira tão bem na vida e em tão agradável companhia!
Pagou principescamente, fez questão de marcar um almoço para me conhecer melhor, e saiu, feliz da vida.
O Januário demorou tempos infinitos para preencher o cheque para me pagar: os tremeliques provocados pelo riso não lho permitiam.
Por fim, comentou, dando-mo para a mão:
- Ainda não sei bem o que é essa coisa de capital de risco… Mas capital de riso deve ser isto…



(1) «A Estranha Influência do "Despeça-se Já!"» neste mesmo site.
(2) As Aventuras do Sr. Oliveira estão disponíveis em www.centroatl.pt/medina
(3) Desta vez já era melhor: um Peugeot só com 20 anos. Mas também cor-de-rosa... Porque seria?!
(4) A D. Rosa tem um papel importantíssimo no romance «Jeremias, Consultor» (disponível na Web em www.janelanaweb.com/humormedina). Esse livro é a continuação de «Operação JEREMIAS», encontrável no mesmo local e também nas livrarias. Numa altura em que tanto se fala de «maioria rosa» não admira que a personagem feminina que primeiro aparece tenha esse nome...
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