Guru e Empresário

18
Quente, quente...

Já há algum tempo que eu não tinha notícias do Januário, pelo que, ontem, resolvi visitá-lo...
Fui dar com ele, pensativo, fumando cigarro atrás de cigarro, sinal inequívoco de que estava num daqueles dias de grande criatividade.
Via-se mesmo que, de um momento para o outro, iria sair daquela cabecinha mais uma grandiosa ideia para algum negócio em que ainda ninguém tinha pensado.
Nesses momentos, o importante é eu ficar calado. Ou, quando muito, tentar saber, através da D. Rosa, o que é que se passa.
- Ele está a planear uma viagem ao interior do país. - Explicou-me ela, em surdina - Não tarda nada, mete-se no carro e desaparece sem dizer "água-vai!".
Enganava-se, mas não por muito:
De facto, e de súbito, Januário deu um salto do sofá, pegou com brusquidão nas chaves do carro, dirigiu-se para a porta da rua e desafiou, virando-se para nós:
- Quem tiver coragem que me siga!
Que estranha frase! Desde quando é que era preciso "ter coragem" para o acompanhar nos negócios?! O certo é que, talvez fascinados por essa invectiva, eu e a D. Rosa acompanhámo-lo sem fazer quaisquer perguntas!
E foi assim, num injustificado e desagradável silêncio mortal, que percorremos umas duas centenas de quilómetros no seu novo Jaguar cor-de-rosa!

***

Já o sol começava a pôr-se quando, por fim e bruscamente, o Januário encostou o carro numa berma da estrada.
A toda a nossa volta não se via vivalma!
Apenas, e muito ao longe, um rebanho de cabras que parecia saborear as delícias da autogestão pois nem o pastor estava visível...
- É aqui que eu quero investir - declarou, por fim, quebrando um silêncio que já se estava a tornar insuportável.
E prosseguiu, clarificando:
- Comprei aquela serração que ali está em baixo e vou dedicar-me à indústria da madeira de pinheiro.
Ficámos sem fala! Como é que isso ia ser possível?!
Para o nosso grande empresário não havia impossíveis. Mas, mesmo sabendo isso, atrevi-me a perguntar:
- Olha lá, já pensaste porque é que a serração que tu queres comprar fechou? Decerto porque não era rentável!
- Eu sei. O problema é que, com a doença dos pinheiros que agora há para aí, a Comunidade Europeia exige que as madeiras tenham tratamento térmico. Ora isso obrigava a grandes investimentos e o dono resolveu vender a serração. Como sempre, cheguei na hora "H" e comprei-a eu.
A revelação era incrível.
A D. Rosa argumentou, então, com a sua lógica terra-a-terra:
- Ó patrão! Mas então o senhor vai ter de gastar esse dinheiro todo!
E foi nessa altura que ele, apontando para uma serra à nossa esquerda onde se via uma infinidade de pinheiros recentemente ardidos, explicou, displicente:
- Nada disso. Já comprei também aqueles pinheiros todos. Querem melhor tratamento térmico do que o que eles já têm?
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