Guru e Empresário

17
Rico Par-de-Botas!

- Olha lá, tu sabes falar russo?
Foi com esta incrível pergunta do Januário que eu apanhei na semana passada quando já me preparava para arrumar as coisas no escritório e dar o dia de trabalho por terminado.
Ainda lhe quis perguntar porque é que me punha essa questão, mas ele limitou-se a responder:
- Deixa estar. Eu e a D. Rosa cá nos desenrascamos. Já vi que não posso contar contigo quando mais preciso.
E desligou-me o telefone!!
Fiquei furioso. Além da má educação correspondente a esse acto, ainda estava em causa a injustiça! Sim, porque, se há pessoa que se tenha dedicado a ajudá-lo (quase) desinteressadamente nos negócios, esse alguém era eu!
Mas a curiosidade foi superior a esse sentimento e - está-se mesmo a ver - não resisti a passar pelo escritório dele para ver o que se estava a passar.
Vinha eu ainda longe, e já me apercebia de que algo de muito estranho estava a suceder para aqueles lados:
Um enorme camião TIR estacionara à porta e, pelas letras esquisitas que trazia pintadas, via-se que devia ser de um país de Leste.
Ligando esse facto ao teor do telefonema, estava-se mesmo a ver que era russo.

***

Havia uma grande confusão naquele local:
É que o monstro fora estacionado na zona dos parquímetros e ocupara logo meia-dúzia de lugares!
E o Malaquias, como bom arrumador de automóveis que é, apareceu logo a ajudar tendo em vista uma boa gorjeta.
Vim a saber que, depois de muito estender a mão para o espantado condutor, recebera uma moeda com uma foice e um martelo gravados! Furioso, o nosso amigo fora chamar a autoridade.
E agora ali estava o guarda Zimbório, o polícia de trânsito que por ali costuma andar, a coçar a cabeça e a folhear o seu manual das multas, sem saber se havia de aplicar uma ou seis...
Entretanto, alheios a isso tudo, o Januário e a D. Rosa afadigavam-se a carregar caixas e mais caixas para dentro do escritório enquanto, no interior do camião, um sorridente casal ia pondo a jeito a mercadoria.
Saudaram-me em russo e eu correspondi com um «Igualmente!».
Reparei então na esbelteza daqueles dois: nem pareciam pessoas que andassem na estrada, especialmente o cavalheiro, com um físico elegante, muito diferente do que costumamos ver num típico condutor de camiões TIR.
Mas isso não tinha importância, nem sequer o facto de que, afinal, quem guiava era a senhora.
O importante é que ainda cheguei a tempo de ajudar a carregar algumas caixas.
No fim daquilo tudo, e quando o casal se foi embora (depois de ter ficado a olhar com cara de espanto os seis papelinhos correspondentes a outras tantas multas), sentei-me num dos sofás e, enquanto limpávamos o suor da testa, perguntei:
- Então agora conta lá o que é que aqui se passa!
Januário, cruzando a perna e acendendo um cigarrito reciclado, começou:
- Pois é, meu caro amigo. Já lá vai o tempo em que Portugal exportava calçado para a Rússia. Agora, com essa história da globalização, até sucede o contrário! E, devido à crise que vai lá para a terra deles, consegui comprar estes dez mil pares de botas a um preço espantoso!
Olhando pelo vidro da montra e vendo que estava a chover, sorriu e concluiu:
- Digamos que os comprei... ao preço da chuva!
Depois, virando-se para mim com ar sério, comentou:
- Desculpa lá a maneira como há bocado te falei ao telefone. Vou-me redimir oferecendo-te um par de botas ao teu gosto.
Não havia muito por onde escolher, pois eram só de dois tipos: para homem e para senhora. Além de vários tamanhos, é claro.

***

E foi assim que nós os três tirámos os sapatos que trazíamos e calçámos "material novo".
- São muito quentinhos e confortáveis! - comentámos, quase ao mesmo tempo.
E, como entretanto parara de chover, resolvemos ir dar uma pequena volta pelo passeio "para testar o produto".
E foi nessa altura que se deu o inesperado:
Eu escorreguei e caí para o lado esquerdo, o Januário caiu para o lado direito, e a D. Rosa demorou um pouco mais a estatelar-se, pois ainda deu duas ou três piruetas antes de ir cair junto ao parquímetro onde o guarda Zimbório ainda coçava a cabeça.
Quanto ao camião, esse, já ia longe!
Voltámos para dentro. Eu não sabia o que dizer, e só imaginava os dez mil futuros clientes do Januário a caírem para um lado e para o outro mal andassem à chuva! E nem sequer se poderia dizer que as botas eram de Verão, devido à espessa camada de lã que as revestia internamente e as tornava tão confortáveis!
Vim-me embora sem grandes despedidas, e abalado por ver o Januário quase a chorar, rodeado de caixas e mais caixas de botas praticamente inúteis!

***

- Já está tudo resolvido!
Foi com esta estranha frase que o Januário me acordou na madrugada seguinte. E prosseguiu:
- Já localizei o casal russo e eles vão ajudar-me a vender as botas!
Adormeci mais tranquilo.
De manhã, logo que pude, apareci lá na loja para saber novidades.
O Januário estava feliz:
- Sabes? Eu comecei a desconfiar que havia aldrabice quando reparei que as botas eram em sola de Ceilão. Como sabes, o Ceilão agora chama-se Sri Lanka e não é na Rússia. Isso fez-me desconfiar que o material era falso. Assim sendo, já havia um bom motivo legal para desfazer o negócio. Localizei a pensão onde eles estavam, fui até lá, a ameacei queixar-me à polícia. Ora eles, depois de terem apanhado com seis multas de trânsito, ficaram com um medo tal da nossa polícia que não te digo nada! Portanto, devem estar mesmo aí a chegar.
Riu-se e eu perguntei:
- Resumindo: disseste-me que eles vinham ajudar-te a vender as botas... Calha bem, que hoje chove bastante e quero ver como é o marketing deles!
- Marketing?! Qual marketing?! Então não os reconheceste?! Eles são o famoso par Oulianov & Oulianova, campeões olímpicos de patinagem artística!
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