Guru e Empresário

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A Olhar p´ró Boneco

Pequena explicação para os leitores que não estão a par da realidade lusitana:
Em Portugal encara-se a possibilidade (muito louvável) de fazer com que o valor das portagens dependa do índice de utilização do veículo.
Assim - e muito bem - um carro deverá pagar tanto menos quanto mais pessoas levar.
O problema é:
Como controlar isso de uma forma eficaz?
Resposta:
Recorrendo ao Januário, obviamente!

***

Sabendo eu como o Januário está sempre atento a todas as formas de ganhar (ou, pelo menos, de poupar) dinheiro, eu não devia ter estranhado quando ele me telefonou:
- Logo à noite preciso da tua companhia. Vamos testar o novo sistema de portagens económicas. Aparece cá no escritório depois do jantar, logo a seguir à telenovela!
Desligou o telefone bruscamente e mais não disse!
Devia estar, de facto, muito atarefado para nem sequer me perguntar se eu estava disponível!
Acontece que ele sabe como eu, além de ser, por natureza, muito curioso e prestável, admiro de sobremaneira o seu espírito empreendedor. Assim sendo, ele bem podia estar certo de que eu não ia deixar de aparecer...

***

- Só agora?! Vamos, entra, que se faz tarde!
Foi assim - ainda por cima! - que ele me recebeu.
Já estava ao volante, já tinha o carro com o motor a trabalhar e a porta do meu lado já estava aberta.
E, mal eu entrei, arrancou a grande velocidade em direcção à auto-estrada por ser onde havia a portagem mais próxima.
Januário, visivelmente nervoso, fumava cigarro atrás de cigarro, e talvez tivesse sido devido à fumarada que inundava a cabina do carro que eu não reparei logo na senhora e nos dois distintos cavalheiros que vinham no banco de trás!
Vi-os de relance (pelo pequeno espelho da pala), calados e sisudos, talvez incomodados pelo fumo do tabaco.
E fiquei muito preocupado: o que estariam eles a pensar de mim?!
Como fora possível eu não ter dado por eles?! Bem sei que estava escuro quando entrei para o automóvel, mas dei as boas-noites e também era previsível que eles tivessem respondido!
Bem... talvez estivessem magoados por eu não os ter cumprimentado com mais deferência ou mesmo olhado de frente, mas o que é certo é que na altura nem reparei neles e agora não havia nada a fazer.
A solução era esquecer o incidente e, a propósito de qualquer coisa, metê-los na conversa como se não tivesse acontecido nada. Os pretextos não faltariam nessa noite, e haviam de vir mais cedo ou mais tarde.
Mas, se eles eram pessoas de tão poucas falas, o Januário também não estava para grandes conversas. E foi assim, a uma velocidade muito pouco recomendável, que nos aproximámos das tais portagens.
Pelos vistos, e para minha grande surpresa, o sistema já tinha entrado em funcionamento! Como fora possível isso acontecer sem eu estar informado?!
Ou estaria aquilo numa fase experimental com o Januário já metido na versão beta no negócio?!
Resolvi ficar calado. E foi num silêncio tenso que aquelas cinco alminhas percorreram o caminho.
Quando se começaram a ver bem as cabinas das portagens, o nosso amigo, sem hesitar, dirigiu-se para uma delas.
- Agora está com atenção. Quem está de serviço é o meu amigo Oliveira. É ele quem vai confirmar que o carro tem direito à tarifa reduzida. É tudo muito rápido, muito automático, e a gente nem sequer pára.
E assim foi!
Sentado num banquinho alto, com os pés a abanar, o famoso Oliveira (a quem pertencera a loja onde agora o Januário agora tem o escritório) sorria e espreitava para o interior das viaturas que passavam...
Mas, de facto, foi tudo muito rápido:
Um aceno do Januário, outro do Oliveira, e toc' andar! Não deu para conversas, nem para abrandar, e muito menos para parar, pois vinham outros carros atrás, igualmente cheios, e com a pressa que caracteriza todos os portugueses quando vão na estrada.
E foi só depois de passarmos aquilo tudo que o nosso amigo pareceu descontrair e abrandou a velocidade.
Ao vê-lo distender-se e - mais ainda - ao ver que o sistema funcionara bem, achei que estava na altura de quebrar o gelo.
- Então, Januário? Estás satisfeito? Também andas metido neste sistema de portagens com automatismo humanizado? Não é grande tecnologia, esta de meteres o Sr. Oliveira a espreitar para dentro dos carros!
E, metendo a cara no meio duma nuvem de fumo e aproximando-me do seu ouvido direito, sussurrei:
- Não achas que já está na altura de me apresentares a senhora e os senhores?
Ele deu uma gargalhada que me atordoou pelo seu aparente despropósito.
Mas a surpresa durou pouco:
- Ah! Está mas é na altura de te pôr a par do meu novo negócio de manequins!
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