Guru e Empresário

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Havia a Via...

Pequenas explicações para os leitores que não estejam a par da realidade portuguesa:
A Via-Verde é o sistema de portagens automático usado em Portugal pela BRISA (a concessionária das auto-estradas), bastante avançado tecnologicamente. Os mais renitentes às novas tecnologias recusam-se a aceitar essa modernice. (Ver a história «Havia Verde» em http://zonanon.com/arquivo/cmr.html).
O F. C. Porto, o Benfica e o Sporting são os maiores clubes portugueses, cujas cores são, respectivamente, o azul, o encarnado e o verde.
De há 5 anos a esta parte o primeiro deles tem o "hábito perverso" de não deixar os outros clubes ganharem campeonatos.

***

Da última vez que encontrei o Januário ele estava a olhar, com um ar muito compenetrado, para um folheto da BRISA.
Pelo que percebi, tratava-se de uma publicação já antiga mas que, mesmo assim, o parecia interessar de sobremaneira.
- Trinta para cem são setenta… - ele fazia contas em voz baixa e não me dava atenção.
- E vão sete! - disse eu, só para o provocar.
Finalmente, ele acabou por pôr de lado o papel e explicar-me do que se tratava:
- Estou decidido a voltar aos grandes affaires. Esta cabecinha é só ideias de negócios! Só ideias de negócios! - ufanava-se ele, sem se rir, batendo com o indicador direito no cocuruto.
Sorri cá para comigo, não comentei nada, e encorajei-o a prosseguir.
- Este folheto já é antigo, mas a realidade actual também não deve ser muito diferente.
Era óbvio que ele estava a preparar alguma, e o raciocínio andava de roda de uma simples frase que se lia no prospecto e para a qual ele me chamou a atenção:

«Mais de 30% dos automobilistas já usam a Via-Verde!»

- Estes patuscos são mesmo optimistas! Deve ser da brisa que apanham na cara! A maneira correcta de ver a coisa seria: «Quase 70% dos automobilistas não usam a Via-Verde!». Mesmo que a coisa tenha evoluído um bocado (desde a publicação do papel até hoje), estou convencido de que a maioria continua a não a usar. E isso pede uma análise científico-social, quiçá político-partidária, para já não dizer desportivo-cultural...
Fiquei esmagado pela terminologia, sinal inequívoco de que se preparavam grandes coisas.
Mas, de facto, e a ser verdade o que ele dizia, tive de lhe dar razão, pois os automobilistas portugueses não ficam nada atrás dos estrangeiros em inteligência média. Muito antes pelo contrário, como o demonstram as estatísticas dos acidentes que nos colocam num lugar invejável e imbatível.
Portanto, a razão para tanta gente recusar a Via-Verde terá de ser procurada noutro lado.
Mas, nesse dia, a conversa ficou por ali.
Até que, ontem, recebi um telefonema dele, esfuziante de alegria:
- Não só resolvi o mistério, como vou ganhar dinheiro com a coisa!
Pronto! O Januário descobrira, pelos vistos, mais algum nicho de mercado, coisa que, como sabemos, é a sua especialidade.
E, se me chamava, era porque precisava de ajuda. E eu lá fui, na perspectiva de vir a ganhar também alguns trocos com o que pudesse brotar (e pingar...) daquele cérebro fervilhante de ideias!
Fui dar com ele rodeado de jornais desportivos. E - coisa rara! - a navegar na Internet com o seu velho 386 (que, a acreditar nele, actualizara para um 387).
Estava de volta de uns gráficos esquisitos e de uns mapas dificilmente identificáveis. Mas era qualquer coisa, também, referente ao mundo da bola e dos desportistas de bancada.
- Sabia que te interessavas por futebol, mas nunca te considerei um maluquinho...- comentei, para puxar por ele.
- Nem sou... - retorquiu, negligentemente. - E o facto de eu manter uma saudável distanciação em relação a essa terrível doença vai ser fundamental para o negócio que tenho em vista!
E prosseguiu, fazendo - finalmente! - luz no meu espírito:
- É o ovo de Colombo, homem! É o ovo de Colombo! A maioria dos que usam a Via-Verde deve ser do Sporting!
Quem diria! Nunca tinha pensado nisso!
Os outros seriam, portanto, apenas as excepções que confirmariam a regra!
- Eu proponho-me tomar de Franchising, e durante 3 anos, outras portagens. E afectá-las, pelo menos para já, aos adeptos do Benfica e aos do F. C. do Porto. Terei em conta zonas geográficas, estatísticas cientificamente elaboradas e coisas assim. E nem preciso de muito trabalho, pois está tudo aqui na Internet! Bastam-me apenas umas latas de tinta vermelha e azul.
E rematou:
- As letras "V" podem ficar.
Confessei-lhe que não percebia esse pormenor, que me parecia importante e contraditório. Na medida em que os "V" (pensava eu) eram, precisamente, e ao mesmo tempo, o símbolo de "Via" e a alusão a "Verde".
- Mas, a partir de agora, podem representar, também, "Via" e "Vermelha" - foi a resposta.
- Não está mal visto, não senhor…Mas, para o F. C. Porto, como é que fazes?!
Só que já estava tudo pensado na cabecinha do Januário que, além do mais, andara a estudar a numeração romana por causa do problema do Século XXI (1)!
- Bem… pode ser que, para os próximos anos, precise de fazer mais dois ou três risquinhos a seguir ao "V"... Mas, para já, fica associado ao "5". Ou também nunca ouviste falar do Penta?! (2)



(1) O facto de o Século XXI só começar em 1 de Janeiro de 2001 tem a ver com a inexistência do ano "zero", com o facto de a numeração romana não contemplar o número "zero", etc., etc. Mas, hoje, poupemos os leitores a esses assuntos.
(2) Leitores mais atentos perceberão porque é que o Januário pensava num horizonte de 3 anos aos quais associava os tais "três risquinhos":
Prevendo que o Porto pudesse continuar a ganhar campeonatos, o "V" iria passar a VI, VII e, por fim, a VIII.
A partir daí, deixava de poder aproveitar os "V" e o negócio deixava de ser interessante.
O Franchising seria, pois, por 3 anos.
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