Guru e Empresário

14
"Cinto" Muito...

Quem é que, em Portugal, e pouco tempo depois do 11 de Março de 1975, poderia pensar que bancos, seguros e tudo o resto regressariam um dia a mãos privadas?!
Pois um dos negócios emergentes que o Januário traz debaixo de olho tem a ver, precisamente, com as privatizações.
Diz-me ele:
- Já viste que até a polícia e a GNR tiveram de ceder parcelas da sua actividade quando apareceram as empresas privadas de segurança?
E explicava a evolução do seu raciocínio:
- E é aí que eu pretendo chegar: à mais do que previsível privatização das brigadas de trânsito, da GNR e da PSP! Sim, porque se a ideia vigente é entregar a privados as actividades que possam dar lucro, então, mais cedo ou mais tarde, hão-de privatizar a actividade de passar e cobrar multas de trânsito!
E foi nessa perspectiva que o Januário começou a organizar («com calma, método e tempo» - são palavras suas) o novo-futuro negócio.
Para me convencer a entrar para a sua sociedade, resolveu mostrar-me o que se poderia facturar, pelo que me levou, em hora de ponta, a dar uma volta no seu novo automóvel.
Ao passar por um viaduto que cruzava a auto-estrada às portas da cidade, parou o carro e comentou:
- Vês? Ali em baixo é proibido andar a mais de 120 km/h, mas também não se pode andar a menos de 40. O que quer dizer que aquela rapaziada toda que está ali engarrafada está em infracção! Agora faz as contas à fortuna que podia ser cobrada!
Era de génio, de facto. E ele continuava:
- Também se podia, ali ou noutro sítio qualquer em que seja proibido parar, montar uma Operação Stop. À parte o que se pudesse facturar normalmente (devido à falta de triângulos, luzes fundidas, etc. etc.), pelo menos nenhum escapava à multa de ter parado num local de paragem proibida!
Essa, então, parecia-me de mestre! Mas a lição não tinha acabado.
Retomou o andamento, e a certa altura mostrou-me uma zona onde havia um traço contínuo e, mais adiante, um traço descontínuo. E prosseguiu a sua lição:
- Isto dos traços contínuos e dos traços descontínuos é muito subjectivo… Muito subjectivo...
Atirou fora a beata com uma cuspidela pela janela e continuou:
- Ora pensa bem: um traço, mesmo que tenha 100 ou 200 metros de comprimento, pode ser considerado descontínuo, porque não é infinito.
O homem tinha razão! Não o interrompi...
- Da mesma forma, isso a que chamam traço descontínuo, mesmo que só meça um metro ou dois, pode ser considerado contínuo, porque o é ao longo de todo o seu comprimento. Por isso, podes muito bem multar um palerma que o pise!
Eu estava siderado! Nunca tinha pensado que pudesse haver tantas interpretações para coisas que pareciam tão simples!
Mas o que mais me impressionou foi a calma com que ele começou a pisar um desses longos traços contínuos!
- Ó Januário, não achas que estás a exagerar? Eu bem sei que, pela tua teoria, só há traços contínuos quando te convém, mas o que é certo é que ainda não és polícia e estás a arriscar-te a apanhar aí à frente um a sério!
A resposta dele desorientou-me:
- Claro que, se aparecer aí um polícia a dizer que estou a pisar o traço contínuo, não lhe vou argumentar com essa. Tenho outra resposta muito melhor. Ora olha bem para a estrada com atenção...
Olhei, e só vi que continuávamos em infracção! Mas ele esclareceu-me:
- Hás-de reparar que eu encaminhei o carro por forma a que ele não vá a pisar o traço. Vão duas rodas de cada lado. Claro que se aparecer um polícia e me mandar encostar, acabo por pisar o risco, mas aí a culpa é toda dele!
Não sabia mais o que pensar nem o que dizer.
De facto, quando o Januário pudesse começar com o negócio das polícias-de-trânsito-privadas ia ter um sucesso retumbante!
Transmiti-lhe essa minha opinião, o que o envaideceu de sobremaneira.
Mas acho que a vaidade o fez perder a noção das realidades...
Estávamos a chegar ao pé do Cabo da Roca quando ele, eufórico, se saiu com esta:
- Olha! Olha agora aqueles gajos que ali vêm! Está a ver? Podíamos multá-los a todos por falta de cinto!
Essa não! Tratava-se de uma simples concentração de motards!

Página Anterior
Topo da Página
Página Principal
Página Seguinte