Guru e Empresário

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O Século XX em Revista(s)

- Não me podem fazer isto a mim! Não podem! Não é justo!
Quem assim falava, ou antes, chorava (soluçando como um perdido), era o meu amigo Januário, habitualmente tão alegre e tão pouco propenso a desanimar!
Pois, desta vez, o Januário chorava mesmo, e com a cara apoiada num enorme monte de jornais e revistas que ia encharcando com catadupas de grossas lágrimas!
E foi só quando ele, num acto de fúria, atirou pelos ares aquela papelada toda que começou a explicar-se:
- Já viste esta cambada de aldrabões?! Já viste o que é a manipulação da informação?! Toda esta tropa dos jornais e das revistas sabe perfeitamente que o Século XXI só começa em 1 Janeiro de 2001!
Já estávamos fartos de falar nisso, e ele, como Grande Empresário que é, até já tinha arranjado forma de ganhar dinheiro com essa coisa (organizando festas de passagem do ano à la carte, e em que o festejante escolhia a data em que achava que o Século XX acabava e o XXI começava!).
Ao princípio ainda pensei que ele estivesse a queixar-se por ter sido apanhado desprevenido... Sim, que empresário, por mais perspicaz que fosse, iria prever que, no Porto, se fariam dois festejos de Passagem de Ano com oito dias de intervalo?!
Mas o que o apoquentava não era, sequer, o aspecto materialista da questão. Era algo de muito mais subtil e rebuscado:
- Aqui, nesta revista, temos Os Desportistas do Século! Nesta outra, temos Os Homens do Século! Naquela que amarfanhei toda, temos Os Vigaristas do Século e Os Idiotas do Século! Bem, e a esta aqui, até vou deitar fogo!
E, pegando no isqueiro e pondo em risco a segurança das instalações, queimou até à última molécula uma revista que anunciava: «Os Empresários do Século».
Depois, acendendo um cigarrito nas últimas brasas do pasquim (como ele chamava à digníssima publicação), continuou, soluçando:
- Quer isto dizer: eu, que contava com os 366 dias do ano 2000 - que até é bissexto - para me candidatar à classificação de Empresário do Século XX, vejo-me obrigado a concorrer, graças a estes malabaristas, à de Empresário do Século XXI, quando já não puder saborear os louros!
- E muito menos as louras, que nessa altura já estás velho! - comentei eu, em tom galhofeiro, para ver se o animava.
Mas ele não estava para graças, e nem a velha piada de que em Lisboa, no Bairro Alto, já existe há muitos anos a «Rua do SÉCULO» (1) o animou ou fez sorrir!
Choradeira para aqui, choradeira para ali, e nem mesmo a D. Rosa, que entretanto aparecera (e, de imediato, sentira despertar o seu instinto maternal), o conseguiu consolar!
Ora, foi mais ou menos por essa altura que, após um tímido toque de campainha, entrou, pela porta da rua que a D. Rosa deixara mal fechada, um distinto cavalheiro, já de avançada idade, envergando um pesado sobretudo castanho.
O nosso Januário, vendo-o, recompôs-se rapidamente e apressou-se a recebê-lo com toda a deferência. Tratava-se de um tal Coronel Reboredo, personagem de quem já se falou, quer nestas crónicas, quer em outras (2).
Esse cavalheiro, então, metendo as mãos nos enormes bolsos, tirou deles, sucessivamente: uma embalagem de Coca- Col*, outra de Fant*, e outra ainda de Água do Lus* (3) que colocou, com cuidado, em cima da mesinha baixa, no meio da sala.
Ora, e como em tempos já referimos de passagem, essa estranha personagem andava a tentar convencer o Januário a entrar como sócio num curioso negócio de duvidosa legalidade, retorcida lógica e ética mais do que suspeita:
Pretendia o distinto ancião nem mais nem menos do que chantagear essas e outras respeitáveis empresas (e, de um modo geral, todas as que vendem embalagens de 33 centilitros), lançando a torpe insinuação de que, sendo verdade que 3 embalagens dessas perfazem apenas 99 centilitros, deve haver alguém - quiçá nas próprias firmas! - a abotoar-se com o centilitro em falta ou com o dinheiro respectivo (como ele dizia)! (4)
«É, possivelmente, uma vigarice de apenas um por cento. Mas, a confirmar-se, é uma vigarice na mesma!» - costumava ele argumentar com grande vivacidade, completando a diatribe com uma profusão de dados estatísticos que recolhera na Internet e com cálculos de cabeça que fariam corar de inveja um Primeiro Ministro! (5)
Mas, nesse dia, o bom do Coronel, vendo o ar abatido do Januário e os seus olhos ainda vidrados (que nem todos os lenços de papel da D. Rosa haviam conseguido enxugar completamente), passou-lhe amigavelmente o braço em torno do pescoço e, falando-lhe como a um filho, consolou-o:
- Amigo e companheiro, não chore nem desanime! Vivemos numa sociedade de consumo, mercantilista, terrível e impiedosa! Você queixa-se dos aldrabões que vendem a ideia de que há séculos com 99 anos, não é? Pois eu queixo-me dos que vendem a ideia de que há litros com 99 centilitros!
Mas quem, afinal, conseguiu animar o Januário (e meter ordem naquilo tudo) ainda foi a sempre lúcida senhora que, sentando-se ao seu lado e pegando-lhe carinhosamente nas mãos, lhe disse:
- Deixe lá o século de 99 anos, patrão!
E, um pouco irritada, virou-se para o outro e desabafou:
- E o senhor, com o devido respeito, deixe mas é a porcaria das latas em paz!
Por fim, e vendo que os dois baixavam a cabeça, abatidos e envergonhados, questionou, simplesmente (e agora em tom sereno, dirigindo-se a ambos):
- Mas oiçam lá: vocês os dois não acham que 99 ou 100 é igual ao litro?!



(1) Trata-se da rua onde era o saudoso jornal «O SÉCULO», e onde todos os empregados se podiam orgulhar de serem os verdadeiros «Empregados do Século»
(2) Ver «Jeremias e as Incríveis Consultas do Dr. Reboredo» e «Jeremias e o Incrível Coronel Reboredo», neste mesmo site.
(3) Parece que, neste género de textos, não se podem referir marcas. Por isso, usa-se aqui o truque das estrelinhas, para as tornar não identificáveis.
(4) Ver a história «O Centilitro Roubado», neste mesmo site.
(5) Referência pouco subtil às dificuldades que, em tempos, um Primeiro Ministro teve para fazer uma conta de cabeça relativa ao PIB.
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