Guru e Empresário

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Século XXI, S.A.

- Ainda bem que chegas. Dá lá aqui uma mãozinha à gente!
Quem ontem assim me falava, à porta do seu escritório, era o nosso amigo Januário, ocupadíssimo, juntamente com a D. Rosa, a descarregar inúmeros sacos, embrulhos e caixotes de uma furgoneta de aluguer.
- Que raio! O que é que tu trazes aí?! - perguntei eu, ajudando a fazer força, mas aborrecido por ter de ser simpático daquela forma àquela hora da manhã.
- Então não vês na etiqueta?!
Eu queria lá saber da etiqueta! Queria era livrar-me daquilo e depressa!
Foi nessa altura que aconteceu uma coisa muito esquisita:
O nosso Grande Empresário, para descansar, sentou-se em cima de um dos embrulhos e, de imediato, ouviu-se um estranho ruído, uma autêntica sinfonia (ou melhor: cacofonia), misto de cornetas e buzinas!
Muito embaraçado, ele, então, lá explicou:
- É para a festa da passagem do ano. Este embrulho tem o que tu estás a ouvir, aquele tem serpentinas, o outro ali ao fundo tem balões, e ainda falta descarregar as caixas dos confettis.
Já começava, então, a perceber. O Grande Empresário metera-se a organizar festas de passagem do ano!
- Boa ideia! Agora, com o Ano 2000, vai ser uma grande festa, mesmo com Bug e tudo! Vais fartar-te de ganhar dinheiro, pelo que percebo. E não me dás sociedade na coisa?!
E para ali ficámos na conversa enquanto a pobre da D. Rosa alombava, sozinha, com os caixotes, sacos, fardos e embrulhos para dentro do escritório.
- Atenção às etiquetas! Olhe que, como eu lhe disse, há os que vão para a cave e os que ficam cá em cima!
Fiquei admirado com essas directivas. Porque é que haveria dois tipos de etiquetas se aquilo era tudo igual?
- Estou a ver que ainda tens muito que aprender, caro amigo! Sabes que há várias maneiras de fazer boas compras, não sabes?
- Claro! Comprar coisas fora de moda, ou em segunda-mão... ou roubadas...
Mas ele interrompeu-me, irritado:
- Não desconverses, que a coisa é séria. Trata-se de comprar em grandes quantidades ou com muita antecedência. E foi isso que eu fiz. Ou antes, tentei fazer...
- Pois não parece! Estamos a um par de dias do fim-do-ano!
- Eu refiro-me à passagem do Século. Ou tu também és dos que julgam que o século XXI começa agora no Ano 2000?!
Claro que não. Qualquer pessoa bem informada e com um mínimo de cultura geral sabe que o Século XXI só começa em 1 de Janeiro de 2001!
E isso devido ao facto de não ter havido o "Ano Zero". Porque na altura em que se procurou fazer uma estimativa de quando Cristo teria nascido o número "Zero" ainda não existia. Etc., etc.
Tudo isso o Januário sabia, tão bem como eu.
Mas ele esclareceu-me:
- Ora bem, quando eu fui (julgava que com tempo), encomendar estas tralhas todas com uns dizeres "Viva o Novo Século!" (com mais de um ano de antecedência, portanto), vim a saber que até já se estavam a esgotar por causa dos teimosos (ou das vítimas do marketing) que teimam que o Século XXI começa agora!
O Januário estava a deixar-me cada vez mais confuso.
Mas ele gostava de fazer esperar as explicações.
Levantou-se, foi dar uma mãozinha à D. Rosa, convidou-me a fazer o mesmo, e só muito mais tarde é que explicou:
- Pois então, já que eu não conseguia poupar dinheiro pelo facto de comprar com muita antecedência, resolvi poupar comprando em grande quantidade. Há aqui material para os que querem festejar o Século XXI agora, mais os que querem festejar no ano que vem. Em vez de organizar uma festa, organizo duas. Pelo menos!
Entrámos na loja. E foi nessa altura que eu reparei nas etiquetas dos embrulhos que ficavam cá em cima, ao pé da porta, já prontos a sair.
Diziam todas: «Novo Século, S.A.».
- Grande pinta! - comentei eu, um pouco magoado - fizeste então uma Sociedade Anónima só para explorar as festas, hem?! E nem me convidaste para sócio nem nada!
- Sociedade?! Ah! Referes-te ao "S.A."?! Só estes embrulhos de cá de cima é que têm. É para distinguir dos outros.
Vim a saber mais tarde que S. A. eram as iniciais com que ele queria distinguir o material para as festas dos que queriam comemorar o... Século Adiantado!

***

A história até podia acabar aqui, mas ainda houve um pequeno post scriptum:
- Ali ao fundo, já está reservado um cantinho para guardar as sobras - explicou-me ele, sempre com o seu ar muito sério de empresário previdente.
- Quais sobras?! - estranhei eu - Então não contas gastar isso tudo neste ano e no próximo?!
- Nunca se sabe, nunca se sabe... Pode vir aí uma crise qualquer, um Bug do Ano 2001... Eu sei lá! De qualquer forma, o melhor é estar prevenido.
- ??
- Pois... Já que há uns patuscos que querem comemorar o Século XXI com um ano de avanço, pode ser que os convença (a esses ou a outros semelhantes) a comemorar, daqui a dois anos, o Século XXII...

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