Guru e Empresário

11
A Marca da D. Rosa

- Olha lá, está por aí a D. Rosa?
- Não, ainda não chegou. Porquê?
- Deixa lá. Tu viste o filme do Zorro?
Confesso que esperava tudo menos estas perguntas todas, pelo telefone, logo às 9h da manhã de Segunda-feira, ao chegar ao meu emprego!
Era - como já perceberam - o Januário que se debatia com algum problema grave!
Respondi-lhe que não tinha visto o filme, mas conhecia bem a personagem dos antigos livros de quadradinhos.
- Também serve! - Respondeu-me ele, nervoso - Lembras-te, então, como era a famosa Marca-do-Zorro?
Claro que me lembrava! Algures no decorrer da acção o herói, com a sua espada, desenhava um enorme "Z" num sítio qualquer, que tanto podia ser a parede do fundo como a testa do adversário.
E foi isso que lhe respondi.
Mas ele queria saber uma coisa muito especial:
- E lembras-te se tinha o tracinho?
Essa era demais!
- Qual tracinho?!
- O tracinho do meio, qual é que havia de ser! Então não sabes que há quem desenhe o Z com um tracinho, assim como se faz nos "t"?
De facto, era verdade!
Da mesma maneira que há quem ponha um tracinho no número "7" (e há quem não o ponha), passa-se o mesmo com o "z"!
Mas, em vez de lhe perguntar para que é que ele queria saber uma coisa tão esquisita, limitei-me a pedir-lhe que me desse algum tempo para pensar e investigar!

***

Desliguei o telefone e, às escondidas do chefe, liguei-me à Internet e fiz uma pesquisa em "Zorro".
E, pelo que descobri, parece que a tal Marca-do-Zorro não tinha o tracinho... Se calhar era para ganhar tempo, para poder fugir mais depressa dos locais dos duelos... Sempre eram 25% de risquinhos a menos que ele tinha que fazer (3, em vez de 4).
Depois ainda perguntei a alguns colegas, no refeitório, à hora do almoço.

***

Bem... só vos digo que os que estavam na minha mesa ficaram a olhar para mim, com cara de parvos, e eu senti-me infinitamente ridículo e muito atrapalhado!
E ainda por cima o Dr. Pirilampo, que é um grande gozão, levantou-se e, depois de chamar a atenção dos comensais todos batendo as palmas, informou, com o seu vozeirão:
- Aqui o nosso amigo quer saber se a Marca-do-Zorro tem um tracinho ou não!
Mas, para grande espanto dele e meu, ninguém se riu!
E só se ouvia cochichar:

«Eu acho que tem»
«Eu acho que não tem»
«Eu acho que já teve e agora não tem»
«Boa pergunta!»
«Esquece. O gajo deve ser mas é maluco»
«Ficou pírulas desde que o mandaram fazer obras para países em guerra...»

Ora o meu amigo Carlos Pinheiral, que estava presente e sabe tudo sobre banda desenhada, pensou... pensou... e, deixando o almoço a meio, saiu a correr, meteu-se no carro, e foi a casa, de propósito, para rever os álbuns do grande justiceiro!
E, a meio da tarde, já depois de eu ter posto até os meus chefes a fazerem pesquisas na Web e no velhinho «Cavaleiro Andante», já estava em condições de (quase) garantir que a tal Marca-do-Zorro não tinha o tracinho!
- Bem me parecia! - Foi o lacónico comentário do Januário quando lhe telefonei a dar conta das minhas diligências.
Essa resposta e, mais ainda, o seu tom (de quem se limitava a constatar uma evidência), irritaram-me de sobremaneira, pois era a prova de que ele não dava valor nenhum aos esforços ciclópicos que a sua pergunta desencadeara!

***

Chegara pois, e agora, a minha vez de lhe fazer perguntas.
E eu quis saber, tim-tim-por-tim-tim, qual era o verdadeiro problema.
- Sabes lá o que me aconteceu! - E fez uma pausa para aquilatar do meu grau de curiosidade.
Fiz-lhe a vontade, mostrei-me até ansioso pela resposta, e ele lá prosseguiu:
- Lembras-te do sarilho que a D. Rosa me arranjou quando trocou "lodo" por "iodo"?
Claro que me lembrava! (1) E essa troca até tivera um epílogo feliz, pois enriquecera um tal Juvenal, concessionário de uma praia poluída.
- Pois agora, para evitar coisas dessas, pus a senhora a aprender a escrever no computador.
- Boa! - comentei eu - Ela, ao menos, envergonha muitos cavalheiros e cavalheiras que eu conheço e que se armam em superiores quando se põe a hipótese de terem que teclar umas coisitas num computador...
Mas o Januário não estava interessado nessas considerações sobre pedantes nem inforfóbicos. Estava nervoso e continuou:
- Sabes que se aproxima o grande Bug do Ano 2000, não sabes?
Claro. Quem é que não saberia!
Por isso o Januário não esperou pela minha resposta para continuar:
- Resolvi, então, anunciar os meus serviços de consultoria especializada em todos os jornais e revistas. Rascunhei o anúncio, dei-o à D. Rosa para ela o dactilografar no computador, e ela, no sábado, veio cá e lá tratou de tudo sozinha.
- Então qual é o problema? - Indaguei eu, cada vez mais confuso - Devias estar satisfeito por teres uma secretária tão eficiente!
- O problema é o excesso de eficiência da senhora!
Perante o meu silêncio de incompreensão, o grande empresário contou o resto da história.
- É que ela, além de escrever o que eu lhe tinha mandado, enviou logo os anúncios por e-mail! E depois apagou tudo!
- Compreendo - comentei eu, compreensivo - e agora estás à rasca com as contas que vais ter de pagar! De facto, os anúncios custam um balúrdio!
- Nada disso! É que eu receio que ela se tenha enganado a escrever a frase publicitária...
Vim, depois, a saber os pormenores. A frase era:

«Aproveite os nossos serviços DOIS-EM-UM:
Com a correcção do Bug do Ano 2000 podemos, simultaneamente, dinamizar todo o software da sua empresa!»

Eu estava parvo! Então o Januário, que percebia tão pouco de computadores (a ponto de dizer que tinha um óptimo 387!) prontificava-se para resolver o problema do Bug do Ano 2000?! E, ainda por cima, se oferecia para fazer up-grades e dinamizar empresas?!
Fiz questão de saber como é que ele estava habilitado a tanto!
- Claro, homem! Eu faço tudo isso e muito mais! O problema é que eu dei o manuscrito para a senhora dactilografar. Ora eu escrevo os "Z" com um risquinho no meio. Estive agora a ver o papel que lhe dei e, na palavra «dinamizar», desconfio que a D. Rosa confundiu o "z" com um "t"...



(1) Ver a história «Os Pontos nos ii», neste mesmo site.
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