Guru e Empresário

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Uma Questão de Etiqueta

Explicações para os leitores que não residem em Portugal:
1 - A instalação de parquímetros veio prejudicar bastante o honesto ganha-pão dos arrumadores de automóveis.
2 - Face ao exagero da publicidade que certas firmas mandam meter nas nossas caixas de correio passou a ser possível, mediante a afixação de um autocolante especial, recusar essa papelada toda. Simplesmente esse autocolante, embora gratuito, só está disponível nas Estações dos Correios. E nem toda a gente tem tempo (ou paciência) para tratar disso.

***

- Chefe, estamos tramados! Os gajos já chegaram!
Quem assim falava, em pânico, era o Malaquias, o arrumador de automóveis da zona onde o Januário tem o escritório.
E "os gajos" a quem ele se referia eram os novos parquímetros...
Mas o drama era previsível, já se adivinhava há muito tempo, e finalmente aconteceu:
As maquinetas invadiam todos os espaços disponíveis (mesmo aqueles em que nós já tínhamos sido multados quando lá era proibido estacionar!), e o pobre Malaquias viu-se, de um dia para o outro, com o seu ganha-pão posto em causa! E, assim, o principal financiador do Januário ficava descapitalizado...
- Lá vou eu ter que passar a laborar no turno da noite... - lamentava-se o pobre rapaz.
De facto, a única possibilidade que ele tinha agora era trabalhar quando as pessoas não fossem obrigadas a pagar o estacionamento: à noite, aos fins-de-semana e aos feriados...
- Isto dos chamados "dias úteis" é muito subjectivo... muito subjectivo...- sempre fora, aliás, um comentário seu quando aprendera o que a palavra queria dizer.
Mas o Malaquias não era pessoa para estar sem fazer nada durante o dia, e em breve abraçava com entusiasmo outra actividade: a distribuição de publicidade pelas caixas de correio da vizinhança.
E até arranjou um contrato muito vantajoso:
Distribuir a publicidade de uma tal Ana Crónica, proprietária de um Supermercado ali do bairro e, por coincidência, moradora no mesmo prédio do escritório do Januário! (E esta parte da frase está realçada porque, como vão ver no fim, este pormenor é muito importante!)

***

- Chefe, estamos tramados! Os gajos já chegaram!
Quem assim falava, agora mais desalentado do que em pânico, era, mais uma vez. o nosso amigo Malaquias.
Só que "os gajos", agora, eram os autocolantes que as pessoas punham nas caixas do correio a dizer

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Mas, se o Malaquias não era pessoa para estar quieta, o Januário não era homem para desanimar.
E foi assim que ele, virando-se para o jovem, ordenou:
- Antes do mais, tira o boné, que estamos em casa. Depois, senta-te aí e descansa. Se queres, podes ir coçando a cabeça, que este senhor não é de cerimónia e não repara.
Como se percebe, eu estava presente, assisti à cena e não intervim.

***

O facto de o Januário ter mandado sentar o rapaz num dos dois sofás de napa verde era sinal inequívoco de que preparava alguma grande acção comercial...
Com efeito, ao fim de um longo silêncio, três cigarritos e duas tossidelas, decretou:
- Vamos arranjar mais autocolantes dessas. Tantas quantas conseguirmos que nos dêem nos Correios. Serão todas muito bem-vindas.
E ficou a ver a reacção que tais palavras provocavam em nós.
O Malaquias coçou o nariz e, olhando-o de esguelha, perguntou, desconfiado:
- Quer dizer que vamos tratar de esgotar essa porcaria de maneira a que as pessoas não as arranjem? Não é má ideia, não senhor...
Mas o cérebro do Januário não iria produzir ideia tão pequena e primária.
Por isso, foi com um ar superior que se dignou explicar:
- Nada disso, meu rapaz. Tanto quanto sei, as pessoas que ainda não colaram essa etiqueta na caixa é porque ainda não tiveram oportunidade de a irem pedir às Estações dos Correios. Nós vamos prestar-lhes esse pequeno serviço. Podes tu mesmo tratar disso e ainda ganhas umas gorjetas...
Malaquias, de olhos esbugalhados, deu um salto no sofá. Mas, tal como eu, não se atreveu a interromper e esperou o resto das palavras do grande guru, que não tardaram a brotar:
- Essa é apenas a primeira fase do meu plano - Januário passeava-se agora pela acanhada sala, de mãos nos bolsos e nariz no ar.
E prosseguiu:
- Habitua-te à ideia de que a realidade é uma pedra multifacetada, e o que parece mau visto de uma forma, pode ser bom visto de outro ângulo. Agora toca a andar. Vai às Estações dos Correios, desenrasca-te, e trata do que eu te disse!

***

E foi assim que o nosso jovem amealhou alguns tostões em gorjetas das pessoas do bairro reconhecidas por se verem livres dos seus papeis.
A acção foi rápida, e o Malaquias conseguiu sempre, habilmente, furtar-se a um encontro menos agradável com a D. Ana...
Só que, sem ele o saber, o grande Januário desenvolvia uma acção paralela: Em cada prédio tratava de convencer um inquilino a aceitar pôr na sua caixa do correio uma nova e estranha etiqueta:

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No mesmo dia, convencia a tal D. Ana a usar papel da mais alta qualidade nos seus folhetos.
Com um pequeno requinte:
Ele propunha-se tratar da impressão e, inclusivamente, vender-lhe o papel necessário a um preço especial.
- Podemos passar agora à fase seguinte - Explicou ele nessa noite. - Já está tudo preparado.

***

E assim foi:
Malaquias continuou, como sempre, a ir levantar às segundas, quartas e sextas as habituais dezenas de quilos de publicidade a casa da D. Ana.
Depois, percorrendo os prédios todos, metia na tal caixa de correio especial a publicidade correspondente aos outros inquilinos que a não queriam!
Finalmente, às terças, quintas e sábados dava nova volta e ia recolher esses mesmos papeis!!

***

Januário, feliz, explicava-me o negócio:
- Ficamos todos a ganhar: o Malaquias, porque distribui os papeis todos; a D. Ana, porque os seus anúncios são todos distribuídos; e eu, porque recolho uma quantidade fabulosa de óptimo papel para vender para a reciclagem. A outra componente do negócio - referia-se ao requinte de ser ele a vender o papel e a impressão - ainda está em stand-by e fica para outra fase.
Fiquei siderado.
- Isso tudo é maquiavélico! E dá dinheiro?!
- Razoavelmente. Mas tive que dar sociedade a um inquilino em cada prédio, o tal que recebe a papelada que os outros todos não querem.
- E conseguiste arranjar um sócio em cada prédio?
- Mais ou menos. Só há uma pessoa que está a ser difícil de convencer. É a ranhosa da vizinha Ana, aqui do 2º Esquerdo. Mas lá há-de ir... lá há-de ir...



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