Guru e Empresário


1
A estranha influência do «Despeça-se já!»


Sendo esta a primeira vez que vos falo do meu amigo Januário é natural que tenha de perder algum tempo a fazê-lo; tempo esse que, no entanto, será recuperado rapidamente e com manifesto proveito para a compreensão da história, como facilmente se aceita e adiante claramente se verá.
Ora o Januário pouco tem, fisicamente, que chame atenção:
Tirando uma poupa de fadista, uma miopia inconfessada, um ou dois dentes de ouro e um físico um pouco afanado (devido ao tabaquito e à falta de exercício), pouco ou nada tem que facilite o trabalho de um caricaturista.
E, à parte o nome, a outra característica que sempre lhe conheci também não é nada original:
Refiro-me ao ódio visceral ao emprego que tinha - ou era obrigado a ter - até à data em que aconteceu o que justifica a existência destas crónicas.
São seus estes versos recentes, muito pouco metafóricos:

«O emprego a que o destino me forçava
comia-me um naco do cérebro
a cada dia que passava...»

e a redundante explicação, que vinha logo nos seguintes:

«Sentia-me um pobre tonto
Sempre que picava o ponto»

Mas esclarecia também:
- O trabalhito, ao princípio, até era interessante, e o ambiente de trabalho uma maravilha. Mas, com o passar dos anos, aquilo mudou muito! Uns colegas estabeleceram-se por conta própria, outros arranjaram coisa melhor, outros morreram, outros ainda reformaram-se... Dos que ficaram, alguns foram postos em prateleiras douradas, outros entretiveram-se a transformar a empresa num saco de gatos...
E eu lá tinha que o aturar, (transmudado em aprendiz de psicólogo de segunda a sexta-feira) como se tivesse alguma culpa a expiar ou vocação para tal actividade, enquanto esperávamos os autocarros - felizmente para destinos diferentes!
De qualquer forma, e a acreditar nas suas histórias, a casa em que ele trabalhava só por ironia se podia chamar empresa pois, desde o mais modesto chefezinho até ao mais respeitável chefezão, todos se entretinham a trucidar-se mútua e alegremente. Assim, a concorrência bem podia dormir um soninho descansado e nem precisava de mandar nenhuma banda de música tocar a música dos patinhos (1) à porta da empresa do Januário.
Por uma desculpável associação de ideias o infeliz fazia ainda considerações sobre casas de loucos e doenças associadas; e o certo é que, mesmo sem querer, eu acabei por ficar com umas noções muito razoáveis de gestão pela negativa só de ouvir como funcionava a firma onde o pobre do Januário arrastava os seus dias e definhava a olhos vistos (a firma e ele, entenda-se...).

Como se percebe, as suas conversas, nessa época, não eram bem conversas... eram mais uns monólogos, verdadeiras sessões de terapia em que eu participava, à força e a meias com o poste da paragem!!
Sim, porque o poste da paragem era severamente pontapeado de cada vez que ele descrevia alguma cena mais incrível ou mais revoltante, pelo menos aos seus olhos:
«Hoje vou contar-te como é que eles me enganaram da primeira vez...»
E lá vinha alguma estranha história, que não interessa para aqui, (2) e à qual eu contrapunha fracos argumentos para o animar.
Enfim, lá o consolava como podia, dizendo, por exemplo, que "todas as empresas são iguais", o que não é verdade. Pelo menos naquela em que eu trabalhava o ambiente era exactamente o oposto do que ele descrevia, a fraternidade laboral era um dado adquirido e o amor à camisola só não era uma segunda pele porque até era a primeira! Mas, quando se trata de consolar os amigos, a gente diz o que lhe vem à cabeça.
O certo é que, quando aparecia ao longe o autocarro dele, eu, aliviado, dizia-lhe, dando-lhe uma palmadinha nas costas:
- Deixa lá, homem! A vida é mesmo assim... Mas por hoje estamos conversados, e o melhor é despedires-te já...
Pois mal eu sabia que essa referência subliminar ao "despeça-se já" lhe ficava a borbulhar na cabeça... «A fermentar» - como ele me explicou melhor no dia em que me comunicou a grande decisão:
- Hoje mesmo vou mandar bugiar aquilo tudo! O meu ordenado ainda vai dando para o passe social, mas ultimamente já estou a dever dinheiro ao psiquiatra...
Não era possível! O Januário iria despedir-se ao fim de quase 30 anos na empresa?!
Pois, de facto, assim aconteceu, e só muito mais tarde nos voltámos a encontrar.

***

Dessa vez foi um pouco diferente o nosso encontro na paragem:
Enquanto eu esperava o autocarro ele parou o carro e ofereceu-me boleia!
Sim, leram bem: parou o carro...
Mais concretamente: um Volkswagen cor-de-rosa, do tempo da Guerra! (3)
Não comentei o facto.
Entrei, repimpei-me, e fiz o meu melhor sorriso para mostrar o prazer de o encontrar de novo e - pelos vistos - melhor de vida.
Mas, para meu espanto (e quando eu pensava que me ia levar ao emprego), fez meia-volta, meteu por umas ruas estreitas, e, ao dar por mim, estávamos num sítio que eu conhecia muito bem:
A antiga loja do nosso comum amigo Oliveira, agora retirado dos negócios da compra e venda de material eléctrico e electrónico! (4)
¾ Ficaste com o trespasse?! - perguntei eu, abismado.
Mas o Januário limitou-se a sorrir e não me respondeu logo.
Despachou o Malaquias (5) com uma generosa gorjeta, procurou a chave da porta algures num enorme molho, e depois, escancarando-a com um gesto teatral, exclamou:
- Et voilà !
E ali estávamos, pelos vistos, na empresa do Januário! Mas que raio de empresa seria aquela?! Teria ele retomado o negócio do nosso amigo que só não falira porque se reformara?!
Entrámos. E à medida que os meus olhos se iam habituando à escuridão - e também à medida que ele ia abrindo as portadas das janelas - eu ia relembrando velhos tempos e anotando mentalmente as mudanças.
Vim a saber que se preparava para atirar para a cave as caixas e caixinhas onde dantes estavam guardadas as tralhas electrónicas, forrara o chão com uma alcatifa roxa debruada a dourado e metera dois sofás de napa verde virados um para o outro com uma mesinha baixa no meio deles.
Junto à janela, uma cadeira de braços e uma secretária com um velho 386 em cima mostravam que se estava num lugar de trabalho...
Ah! E havia as prateleiras e as estantes.
A novidade até nem eram elas, propriamente ditas, mas sim o que agora comportavam, pois os eternos manuais técnicos (que eu sempre lá vira) haviam dado lugar a resmas de revistas e livros de gestão!
Saboreou o meu espanto, omitiu na altura o facto de os ter comprado ao quilo, sentou-se, e convidou-me a fazer o mesmo.
Olhei para o relógio, para ver se teria tempo para a conversa que se prenunciava e ameaçava ser longa.
E eu sem transporte próprio...
- Estás preocupado com as horas? Não me digas que és dos que picam o ponto! - E deu uma grande gargalhada antes de acender um cigarrito sem filtro e concluir:
- Hei-de contar-te como era o relógio de ponto na casa de pirados onde eu trabalhei (6)... Mas isso é conversa para outro dia. Vejo que ainda não percebeste o que aqui se passa...
Confessei-lhe que estava a desconfiar de qualquer coisa. Mas era estranho demais, e foi ele quem respondeu, confirmando, afinal, o que eu já suspeitava:
- Especializei-me em gestão e transformei-me em guru...
E disse isso com a cara mais normal do mundo, como se me revelasse, simplesmente, que tinha deixado de fumar - coisa que aliás, sempre passou a vida a prometer.
- Agora, muitos idiotas que se riam do que eu dizia, vêm até aqui consultar-me e pagam pelos meus palpites... E ainda hei-de ver uns gajos que eu cá sei a desembolsarem uns cobres para me entrevistarem!
Engasgou-se ao tentar, sem êxito, refrear uma gargalhada... Mas recuperou e prosseguiu, recostando-se, consolado:
- Bem... como sabes, eu sempre fui um tipo cheio de ideias... o meu sonho era passá-las à prática e fazer negócio com elas. Mas faltava-me, além do tempo, senso e agressividade comercial, compreendes?
Claro que compreendia... Por vezes, são simples eufemismos para encobrir a dose de chã aldrabice que é necessário possuir para se singrar nalguns ramos de negócios...
Ele continuou:
- Tendo em conta essas minhas limitações descobri, no entanto, que podia ganhar umas massas vendendo a outros as minhas ideias. Claro que também dou palpites de franchising, e decorei meia dúzia de expressões como capital de risco, business angels, brokers, etc e tal. Não sei muito bem o que sejam, mas, seja lá o que for, a coisa dá-me o spin-off suficiente para viver!
E desatou a rir, esfregando o polegar e o indicador da mão direita no gesto universal que simboliza "dinheiro".
E prosseguiu:
- Vou explicar-te com exemplos reais.
Pegou no copo de whisky, levantou-se, e aproximou-se de uma pequena cavidade que havia na parede.
Aliás, havia por ali vários desses buracos, aos quais eu nunca dera muita atenção. Meteu a mão num deles, tirou uma quantidade de papelinhos azuis, e passou a explicar:
- Estes nichos estavam mesmo a calhar para os "nichos de mercado"! E nestes papeis estão as ideias em curso. São azuis por acaso, mas calha bem, por causa dessa coisa que há para aí dos blue-ships.
Riu-se à gargalhada, pigarreou, e mostrou-me um minúsculo barquinho de papel azul que tinha feito.
E continuou, depois de lhe dar um displicente piparote:
- Aliás, e para tua informação, muitos dos negócios florescentes que por aí há, nasceram nesta cabecinha que aqui vês!
Comecei a observar os papeis um por um. E ele, acompanhando o meu interesse com satisfação, ia comentado:
- Olha, essa aí... foi a famosa ideia dos ovos cúbicos (7). Está a dar uma grande polémica ética e ecológica, mas acho que tem pés para andar. Essa outra foi a ideia de criar uma empresa para organizar voltas-ao-mundo em trotineta (8). Está florescente!
Tratava-se, com efeito, de negócios de que eu já tinha ouvido falar, alguns dos quais estavam a dar polémicas nos jornais e na Internet. Mas havia mais... muito mais!
- Esse papel aí é acerca da empresa que faz balanças-falantes personalizadas (9) - outra ideia fabulosa que eu tive mas que não correu bem por inépcia do fabricante do software... Ah! Essa é a ideia para resolver o problema dos computadores de reconhecimento vocal, quando têm pela frente pessoas com pronúncias esquisitas (10)... Está a ser um sucesso axim axim...
E a lista parecia inesgotável!
Mas estava a fazer-se tarde e eu ainda sou dos que apreciam um bom emprego, com a segurança que dá uma reforma à nossa espera. E um dos preços a pagar por essa segurança é chegar a horas ao trabalho. Ou, pelo menos, ao emprego... E o Januário compreende isso, pois já passou por elas.
¾ Vamos, eu levo-te lá - Disse ele, não disfarçando um sorriso irónico pouco subtil.
Voltou a fechar tudo e saímos.
E foi quando ele estava a rodar a chave que eu vi uma estranha coisa:
Mesmo ao lado da tabuleta com o seu nome, um pequeno emblema de uma estrela tendo, no meio, as letras TAP.
- Não me digas que também vendes bilhetes de avião!
Mas não... a ideia era outra.
E contou-me, já no carro, que se tinha oferecido para ajudar a resolver a crise da TAP.
Tinha até avançado com esse logótipo a cuja ideia estaria associada a noção de "boa estrela" da empresa.
- Não gostaram, mas deixei ficar o boneco. Dá um ar multinacional aqui à chafarica, e está muito na moda. Sabes? É que isto aqui é uma "Star...TAP"!


(1) A que dá na televisão à hora de ir deitar.
(2) No entanto, e dado que está subjacente a estas narrativas alguma ingénua pedagogia (embora à custa das experiências do pobre Januário), é bem possível que ainda venhamos a saber alguns detalhes das suas desventuras anteriores à libertação...
(3) Da Segunda.
(4) Ver as Aventuras do Oliveira (as publicadas no «Expresso»-«XXI» e outras) em www.centroatl.pt/medina
(5) O Malaquias é um eficiente arrumador de automóveis, herói da história «Especialidades» em http://zonanon.com/humor.html
(6) Histórias de indivíduos que modificam relógios de ponto com o fito de obter estranhas compensações podem ser lidas em www.digito.pt/jeremias («Finalmente o Ano 2000!»), em www.centroatl.pt/medina/315ponto.html («Que Grande Ponto!») e em www.janelanaweb.com/humormedina/livro_rascunho.html («O Clube dos Inventores»)
(7) «Um Problema Bicudo», em www.digito.pt/caderno/cad53.html
(8) «A Grande Volta ao Mundo», em www.digito.pt/caderno/cad50.html
(9) «A Balança» em www.centroatl.pt/medina/314balanca.html
(10) Em «Jeremias, Consultor», livro disponível on line em www.janelanaweb.com/humormedina

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