Crónicas do Estultício


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Como disse??

O Eng. Estultício, talvez devido à proximidade das férias, pôs de lado, temporariamente, o seu lema «Progresso, só o estritamente indispensável».

De facto, fiquei de boca aberta quando, há algum tempo, ele se virou para mim e desfechou:
- Uma vez sem exemplo vou fazer uma concessão a isso a que chamam "progresso".
A cena passou-se, como habitualmente, na esplanada por onde eu passo quase todos os dias. Estávamos no pino do Verão, o sol abrasava, e eu pensava mais em férias do que em qualquer outra coisa. Mas em breve vi, pelo evoluir da conversa, que o assunto que ele queria abordar também tinha a ver com isso.
- Vou pedir-lhe ajuda para marcar uma viagem de férias pela Internet. Quero qualquer coisa de bem original! E pode ser já, pois até tenho aqui o telemóvel!
E, sem mais palavras, ligou o aparelho e deu-mo para a mão.
Comecei, então, a mover-me no "ciberespaço em modo WAP" à procura de uma agência de viagens que oferecesse destinos exóticos. Quando, ao fim de algum tempo, encontrei o que procurava, o Sr. Batatinha, aproveitando uma distracção do Chefe, sussurrou-me:
- Veja se o manda para a Sibéria... diga-lhe que lá o Verão é fresquinho...
Embora também se encontrassem viagens para esses lados, achei muitas outras para sítios incríveis:
- Que tal Java... Bornéu... Papuásia...? - perguntei, contendo o riso.
- Bingo! - Foi a espantosa resposta - Vamos nessa! Marque lá a viagem e o hotel para um desses sítios!
Um brilho de gozo cintilou nos olhos do Sr. Batatinha: decerto pensava em antropófagos... E eu, vendo que estava na minha mão, e à distância de um "clic", a possibilidade de enviar o Estultício para o outro lado do mundo, decidi provocá-lo uma última vez:
- E quer só um bilhete, ou a família também vai?
Para meu espanto o homem respondeu que queria ir sozinho!
- Você não quer primeiro saber a língua que por lá se fala? - Inquiri, confuso, vendo que estava a tornar-se sério o que de início parecia ser uma brincadeira.
- Não se preocupe. O meu filho ofereceu-me uma máquina que traduz 99 idiomas. Tem um microfone, a gente fala, e a tradução aparece pouco depois, quer em som quer em texto.
Perante isso, tratei de tudo, incluindo o pagamento. E, no seguimento dessa incrível conversa, vim a saber que o nosso homem embarcara e se lançara à aventura!

***

O encontro seguinte teve lugar algumas semanas depois, mas não no café do costume. O Estultício estava tão emocionado com a viagem que fizera que decidira brindar-me com uma visita, depois do jantar, para me relatar tudo e mostrar os "slides" que tirara. Tinha chegado nessa manhã e não conseguira esperar mais!
Preparei-me para ouvir descrições inevitavelmente maçadoras mas, a certa altura, apercebi-me de que a coisa ia mesmo ter interesse: é que o homem decidira, de facto, internar-se na floresta-virgem em busca de aventura, devidamente equipado como bom explorador, levando a tiracolo, além de uma espingarda, a tal máquina de tradução automática multilíngue!
Depois de relatar pormenores sem grande interesse a descrição chegou, por fim, a uma parte emocionante. Estultício, levantando-se, interpôs-se entre o projector de "slides" e o écran, e, nervoso, narrou:
- Teria sido tudo uma maravilha se não fosse o susto que apanhei por causa da porcaria do tradutor electrónico!
E explicou-se melhor:
- Na véspera da minha partida o meu filho decidiu confirmar quais as línguas que a máquina traduzia. E, pelo-sim-pelo-não, foi à Internet buscar mais alguns ficheiros do tipo "dicionário".
«Boa!» - pensei eu - «O Estultício até já sabe o que é um ficheiro!»
- A certa altura, quando eu estava bem internado na selva, dei por mim cercado de pigmeus. Peguei na máquina de tradução automática e, virando-me para o que tinha cara de chefe, ditei a mensagem: «Todos diferentes, todos iguais! Eu sou como tu!». Demorou algum tempo até que a máquina funcionasse (grande "suspense"!) mas, por fim, a coisa lá pronunciou tudo com voz sintética. Riram-se muito, fizeram uma grande festa, e levaram-me em ombros para a aldeia, onde fui muito bem recebido.
- Simpático - . Comentei - E depois?
- O pessoal da aldeia batia palmas e cantava em coro. Vim depois a saber que diziam «Nós como tu!». O pior é que a máquina estava com dificuldades de tradução e, antes de eu lhe fazer o "reset", traduzia por «Nós comemos tu!».

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