Crónicas do Estultício


8
Não me Liga!

Como vos tenho contado, de vez em quando encontro o Eng. Estultício, sentado no café por onde eu tenho de passar quase todos os dias a caminho do emprego.

Em geral está acompanhado do seu fiel vendedor, o Sr. Batatinha, e a conta é paga alternadamente: uma vez por um, outra vez pelo outro. A coisa até é engraçada, pois nos dias em que calha ser o Chefe a pagar vêm cervejas para ele e copos de água para o colaborador.
De qualquer forma, quando tenho ainda algum tempo disponível, cumprimento-os e sento-me à mesa para tagarelar um pouco.
E, então, quando chega a altura de escrever esta história mensal, é que não pode falhar! Pois - invariavelmente e com um pouco de jeito - consigo arranjar qualquer coisa, nem que, para isso, tenha de "puxar por ele".

***

Há algum tempo passou-se até uma cena engraçada que, como não tem nada a ver com assuntos tecnológicos, nem pensava relatar aqui. Mas não resisto:
- Você é do Porto, não é? - perguntou-me ele, sabendo muito bem que sim.
E prosseguiu:
- Como é do seu conhecimento, lá na sua terra chamam cimbalino ao café a que nós, aqui na capital, chamamos bica.
Claro que sabia isso, e disse-lho. Pelos vistos a conversa vinha a propósito de, nesse dia e excepcionalmente, estarem a tomar café, pelo que ele aproveitou para contar uma gracinha:
- Sente-se aqui connosco, que vou mandar vir mais um. Assim, e visto que em vez de dois são três, em vez de bica será uma trica!
Achou muita graça a si próprio, o Batatinha esforçou-se por rir, e eu lá tive de tomar o café que ele encomendou mesmo sem perguntar se me apetecia.

***

Mas isso foi já há algum tempo, pois, da última vez que os encontrei, o que me chamou a atenção foi o facto de haver um grande ajuntamento de pessoas (umas em pé e outras sentadas) de roda da mesa deles. O que se estaria a passar?!
Aproximei-me, mas não foi fácil encontrar uma nesga por onde pudesse espreitar. Finalmente, e após algum esforço, lá consegui ver.
Em cima da mesa, e a ser manipulado pelo Grande Engenheiro, estava um computador de bolso, já aberto e ligado. E, mesmo ao lado, o seu telemóvel topo-de-gama!
Percebi, então, que tentavam aceder à Internet. Mas, por um qualquer motivo, não estavam a conseguir.
- Se calhar não tem pilha - dizia o dono do café.
- Ou é porque está à sombra... - aventou o empregado, explicando (para os que se espantaram com a observação) que aquilo podia ter bateria solar.
- Às vezes é falta de gasolina! - comentou o engraxador, rindo, enquanto escovava os sapatos de um cavalheiro na mesa do lado.
Mas o certo é que, uma vez activado o "browser", até foi possível navegar por um "site" comercial, para a frente e para trás! Só no fim, quando se chegava a parte das compras propriamente ditas, é que aquilo não dava nada...
- Acabou o circo, meu senhores! Deve ser a esta porcaria que chamam o e-business. Quanto a mim, a solução é ir até à loja e que se lixe a Internet! - Comentou por fim o Estultício, fechando o aparelho com decisão e arrumando o telemóvel.
As pessoas ainda ficaram algum tempo por ali, dando mais uns palpites, mas depois afastaram-se.
Então sentei-me, fiquei só com os nossos dois amigos, e aproveitei para, mordido de inveja, ver bem o aparelho - uma autêntica maravilha da tecnologia.
O Estultício só comentava:
- Deixe lá isso, homem. Já se viu que não funciona. E, quanto à loja, o melhor é ir até lá. Aliás, é mesmo isso que vem escrito no catálogo.
Não percebi essa última frase, que me pareceu espantosa! Mas, com o decorrer da conversa, fui entendendo o que se passara:
O vendedor, na loja e aquando da demonstração, ligara-se à Internet, navegara por alguns "sites" (entre eles o tal das compras) e essa navegação toda ficara registada na "cache".
Claro que no café aquilo não podia funcionar porque, simplesmente, o nosso amigo não tinha feito a ligação à Web. Mas, vendo o seu ar superior de quem sabe tudo, também não fiz comentários nem lhe expliquei o que se passara.
Como estava a fazer-se tarde, pedi que me emprestasse o aparelho e o livro de instruções para ver tudo com calma. E foi já no autocarro que percebi a tal estranha frase.
Dizia o manual, a certa altura, e referindo-se à ligação por infravermelhos (*) entre o computador e o telemóvel:

IR, A MELHOR SOLUÇÃO!


(*) InfraRed connection

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