Crónicas do Estultício


7
O Macro-problema

Como tantas vezes acontece, lá tive de me cruzar mais uma vez com o Eng. Estultício e o seu fiel Batatinha, sentados na esplanada do café por onde tenho de passar a caminho da paragem do autocarro...

Mas quando, ao longe, vi os nossos amigos, estranhei o facto de ambos se estarem a rir à gargalhada.
Quando assim é, a primeira coisa que eu procuro fazer é assegurar-me de que não estão a ler a «Internet Prática», onde costumo gozar com o Grande Gestor. Se bem que eu tenha um acordo com o filho dele (segundo o qual, e se for caso disso, ele rasga a página respectiva), nunca fiando, nunca fiando...
Pois, de facto, não era essa revista que estavam a ver. Mas - quem diria! - o Estultício tinha entre mãos uma outra, também de carácter técnico, e que eu acabara de ler minutos antes.
Mais confiante, cumprimentei-os então com o meu melhor sorriso e sentei-me no lugar habitual, entre ambos. E, como é evidente, tentei conduzir a conversa por forma a tentar satisfazer a minha natural curiosidade.
Qual o tema (de entre tantos que a revista abordava) que os levava àquela alegria toda?
Pois nada mais nada menos do que os novos meios de ligação ao ciberespaço!
Ora, já no mês passado vimos como o nosso amigo Estultício reagira razoavelmente bem à introdução da tecnologia Internet nos telemóveis. Como reagiria ele, então, às outras modernices (como ele chamava a essas coisas todas) que também dispensavam o computador?
A resposta, se tudo corresse como era habitual, havia de vir no decorrer da conversa. Por isso, recostei-me confortavelmente, pedi o meu copo de água habitual e preparei-me para escutar.
- Esta é a melhor de todas! - bradou o Estultício inesperadamente, dando uma grande palmada na revista, acompanhando-a de uma estrondosa gargalhada - Estes idiotas dos informáticos agora querem meter frigoríficos ligados à Internet! Deve ser para termos notícias fresquinhas!
E, acompanhado pelo Batatinha (que procura sempre rir-se quando o Grande Chefe o faz), explodiu noutra gargalhada interminável que pôs toda a gente no café a olhar para nós!
- A seguir, estes imbecis vão de certeza ligar as torradeiras e os esquentadores à Internet, para quando houver notícias escaldantes!
Eu e o Batatinha olhávamos agora para ele com um sorriso constrangido, pois o facto de termos umas dúzias de pessoas a observar-nos com um ar estranho tornara-se, de súbito, francamente desagradável...
E foi o seu fiel colaborador quem tentou dar um pouco a volta à conversa, argumentando:
- Ó chefe, mas olhe que isso até não está mal visto. Já se chegou à conclusão de que a maior parte das pessoas que tem medo da Internet é por causa dos computadores, que não são nada... como é que se diz?
- Conviviais, ou antes: user-friendly, como se diz em português - completou o Grande Chefe, feliz por ter oportunidade de mostrar como já dominava bem algum léxico associado às novas tecnologias!
- Sim - continuei eu, pegando no assunto por esse ponto de vista -, eu também acho que, se a Internet estiver acessível, por exemplo, através da televisão, tudo se vai tornar mais fácil...
- ... para os idiotas como eu, está você a pensar! - E deu outra estrondosa risada! - Mas é possível, sim senhor. É bem possível... E como isso da Internet é coisa para garotos, se a meterem na televisão deve ser num canal infantil!
Quando é assim (ou seja: quando a conversa desata a descambar para a inforfobia), eu só começo a pensar numa boa desculpa para me pôr a mexer dali para fora.
Estava eu a pensar nisso quando chegou o meu copo de água, pelo que tive de aguentar mais algum tempo e ouvir mais algumas diatribes.
- Você sabe que eu odeio tudo o que seja microinformática, microprocessadores, microcomputadores...
Claro que sabia. Por isso é que fiquei preocupado e quis fugir dali! É que, tendo eu já lido a revista, sabia que, quando ele virasse a página, ia deparar-se com a nova tecnologia de ligação à Internet através dos microondas!

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