Crónicas do Estultício


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Um livro?! Livra!

Foi com um misto de curiosidade e preocupação que, na semana passada, vi o Eng. Estultício a ler, no café, a INTERNET PRÁTICA de Março! Tendo ele, por lema, «Progresso, só o estritamente indispensável» - o facto era para estranhar...

... tanto mais quanto parecia completamente absorto na leitura, a ponto de nem dar pela minha aproximação!
Sentado a seu lado, o fiel Batatinha espreitava também, com o pescoço esticado, a mesma página.
Que diabo! Estariam a ler a «Crónica do Estultício» em que se gozava com o homem?!
Eu tinha um acordo secreto com o filho dele segundo o qual, se necessário, essa página seria rasgada. Mas nunca fiando... Por isso, resolvi dar uma grande volta por forma a aparecer-lhes por detrás.
E foi assim que descobri que estavam ambos muito obcecados com um artigo sobre e-books, que é como se chamam uns livros electrónicos que alguns visionários andam a engendrar.
A ideia consiste num aparelho com a forma de um livro mas cujas páginas estão em branco.
Não se trata de mais um dos inúmeros «Livros-Brancos» que há para aí! Na verdade, o livro também não é bem um livro: vem vazio e tem de se ir buscar o conteúdo a qualquer lado (em princípio, à Internet) e só depois é que se lê.
Claro que, associado a isso, haverá todas as facilidades que se imaginam:
Além de se poder, de certa forma, controlar os direitos de autor, será possível carregar uma quantidade enorme de obras e até - em alguns modelos - anotar as margens! (1)
E não precisa, sequer, de ser um livro: pode ser uma revista ou um simples jornal que, inclusivamente, se pode apagar uma vez lido (visto que não servirá para embrulhar castanhas nem para forrar o caixote do gato).
Eu estava abismado! Tínhamos, pois, o Estultício a preparar-se para aderir a essa modernice que ainda nem sequer estava à venda em Portugal?!
Acabei, então, por dar as boas-tardes aos dois...
Não comentaram o facto de eu ter aparecido de surpresa e o Grande Homem limitou-se a exclamar:
- Ora ainda bem que aparece! Estávamos aqui a apreciar uma coisa que você há-de gostar de ver!
Informei-o, então, de que já tinha lido muitos artigos sobre o assunto e resolvi «puxar por ele», tendo em vista - quem sabe? - o tema para uma próxima crónica (que veio a ser esta!):
- Então e o que acha? - perguntei, curioso.
- Ora! Esta revista foi-me trazida pelo meu filho, que também é como você e anda sempre à caça das modernices. Mas por acaso este produto até tem piada. Tem piada, sim senhor! Estávamos aqui a tentar descobrir se dará para ver televisão na cama.
Comentei que não me parecia, mas ele não se mostrou preocupado:
- Também já achava muita fartura! Estes informáticos nunca mais fazem coisas com interesse prático!
E fechou a revista, dando o assunto por encerrado e convidando-me, jovialmente, a sentar-me à mesa.
Assim fiz. Mandou vir mais uma cerveja para ele e o habitual copo de água para mim, a conversa derivou para outras coisas, e o assunto do e-book morreu.
Algum tempo depois, quando me preparava para me vir embora, reparei que o Sr. Batatinha também se levantava e me piscava o olho!
Era evidente que me queria contar alguma coisa...
E, arranjando uma qualquer desculpa, lá veio ele comigo até à paragem do autocarro.
- Já não aguentava mais! - desabafou, quando se viu longe do Grande Chefe.
E desatou a rir, a rir, a ponto de se engasgar, chamando a atenção das pessoas que passavam. Por fim, quando conseguiu falar, esclareceu:
- Você sabe porque é que o Estultício nunca vai comprar aquela coisa?
Não era preciso ser bruxo. O Estultício nunca compraria o e-book pela simples razão de ser alérgico a tudo quanto é novo... - e foi isso o que eu respondi.
- Errado! O motivo é muito mais simples! É que ele é um daqueles portugueses típicos que, simplesmente, não lêem nada.
- Não pode ser! Então o homem não tem livros em casa?!
- Ter, tem... Mas a utilidade que lhes dá não é muito compatível com o tal e-book. Além disso, tem só dois: uma lista telefónica a calçar a cómoda e um do Pato Donald a calçar a cama...


(1) O "Último Teorema de Fermat" («xn + yn = zn não tem soluções com inteiros quando n >2») só em 1994 foi demonstrado. Fermat escreveu, numa margem de um livro, que tinha uma demonstração mas que aquele espaço não chegava. Se tivesse um e-book...

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