Crónicas do Estultício


3
O Despedimento da D. Florípedes

Como já vai sendo hábito, mais ou menos uma vez por mês tropeço no Eng. Estultício.
Mas, tendo ele deixado de encontrar referências jocosas à sua pessoa, fala-me agora muito bem.
Lá continua fiel ao seu lema «Progresso, só o estritamente indispensável» pelo que, quando eu preciso de assunto para escrever uma destas crónicas, basta fazer-me encontrado com ele e dar-lhe um pouco de corda.
Foi o caso desta vez...

E assim, na semana passada, dei por mim a ouvir mais uma das suas diatribes:
- Você bem sabe que eu não sou contra o mundo digital! Sou é contra o exagero, a invasão dessa coisa por todo o lado!
Fiz que sim com a cabeça, pois estava-se mesmo a ver que ele queria desabafar. E, na ausência do Sr. Batatinha (o seu fiel vendedor e braço direito) ia ser eu a ter que o ouvir.
- Você já sabe que eu tive de despedir a D. Florípedes?
Como não sabia (nem sequer estava a ver quem era a senhora) só tive que mandar vir o meu copo de água e fazer o meu mais convincente ar expectante.
- Pois é. Você já sabe como eu sou. Tenho um coração de oiro, e tão depressa me zango com as pessoas como me passa logo a mosca. E às vezes já nem me lembro se estou zangado com elas ou não...
Comentei que, para um gestor como ele, esse facto tinha vantagens e inconvenientes. Mas tratou-se apenas de debitar um lugar-comum para não estar calado e preencher o silêncio.
O Estultício gosta muito de se ouvir, e fica nervoso se se apercebe que o interlocutor não está a prestar, ao que ele diz, a atenção que ele acha que a coisa merece...
- Não sei se você sabe que ela saiu da Makro-Teknika por causa do gato. Recusava-se a consultar o «Diário da República» na Internet, e veio a descobrir-se que ela só fazia questão na versão em papel porque a usava para forrar o caixote do animal...
Interrompeu-se, riu com prazer, e eu acompanhei-o, sem fazer esforço algum pois a história até tinha graça.
E ele prosseguiu:
- Pois eu não sei o que se passou ao certo. Só sei que a coisa deu para o torto. Você sabe como estas coisas são: palavra-puxa-palavra... dize-tu-direi-eu... e a senhora lá se despediu. Até aqui tudo bem, acolhemo-la de braços abertos. Mas ela começou a levar também o animal para o meu escritório, e aí já não achei muita graça... E o pior é que o raio do bicho tem a mania de vir para o meu gabinete, assim como quem não quer a coisa - está a ver? - e desata a passear-se no teclado do meu computador!
Visualizei mentalmente a cena, achei-lhe imensa graça, ri-me, e ele, feliz, lá continuou:
- Vendo o problema sob um prisma meramente de hardware informático, a coisa não me preocupa muito, porque eu quase não uso a maquineta. Mas achei isso um abuso. Atirei o bicho pela porta fora, e disse à D. Florípedes que não queria animais no escritório para além daqueles a quem tenho de pagar ordenado. Ora a madamme não gostou, e decidiu despedir-se! Mas resolveu requintar a cena, e você já vai ver como estas coisas da Internet, quando usadas em exagero, dão mau resultado.
E fez mais uma pausa para mandar vir outra cerveja para si.
- Pois, como eu lhe ia dizendo, a madamme decidiu fazer uma coisa em grande, despedir-se em beleza, dando um verdadeiro escândalo digital!
Mostrei que não tinha percebido a estranha frase e ele ficou contente por poder esclarecer:
- Ela, que dizia que não sabia navegar na Internet (era tudo treta, por causa do gato!), afinal soube muito bem redigir um e-mail terrível, a dizer cobras e lagartos de mim: facturas falsas, fugas ao fisco... você sabe... essas coisas que, embora dizendo que não, toda a gente faz. E a madamme preparou tudo para fazer o envio mesmo à hora da saída. Com o requinte de que o e-mail seria distribuído pela empresa toda e ainda iam umas cópias para os jornais, para a televisão e para a concorrência!
- E então? - a história estava, de facto, a interessar-me!
- Bem... Sua Excelência passou a tarde toda a aprimorar-se nessa porcaria. Mas eu, que sou pessoa que não guardo rancores, esqueci-me do que se tinha passado de manhã com o gato e fui chamá-la para beber uma taça de champanhe para comemorar o meu aniversário com o resto dos colegas. E, no meio dos copos e das saúdes, eu até lhe disse: «Ó D. Florípedes, vá lá buscar o seu tareco para nos fazer companhia, que não é gente mas é como se fosse nosso colega!»
Riu-se muito, aproveitou para dizer a idade que tinha («Não parece, pois não?») e prosseguiu:
- Ora a nossa amiga, ao ver o meu bom coração, lá foi buscar o gato, e deve ter reconsiderado a sua atitude. Arrependeu-se, e foi para casa sem ter enviado nada... Foi mesmo por uma unha negra! Bastava-lhe só ter carregado numa tecla (uma qualquer!) e teria enviado o malfadado e-mail! E no dia seguinte teria ido para o olho da rua com justa causa! Estou mesmo a ver... copo para aqui, taça de champanhe para ali, e lá foi ela para casa, feliz e contente, e tendo-se esquecido de desligar o computador!
- Foi a sorte dela, não? - perguntei eu, sorrindo, porque a coisa até tinha graça.
Mas havia qualquer coisa na história que não batia certo:
- Então, se ela não enviou o tal e-mail, como é que você soube o que ela escreveu? E não foi até por isso que você a despediu?!
- Bem... já vi que você está mas é a olhar ali para aquela cachopa e não está a prestar atenção nenhuma à minha história!
E, um pouco enfadado, esclareceu, levantando-se e dando a conversa por encerrada:
- Então eu não lhe disse há bocado que o gato tinha a mania de se passear pelos teclados dos computadores?!

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