Crónicas do Estultício


2
O Burro do Presépio (ou vice-versa)

A coisa não podia continuar!
De cada vez que eu escrevia uma crónica acerca do Estultício, o filho (que comprava sempre a Revista) ia logo a correr: «Pai! Vem aqui outra vez a gozar contigo!».
E lá tinha eu o sarilho habitual: o homem sentava-se no café à espera que eu passasse e... «Venha cá, seu pirata, que temos muito que conversar!»

Mas para grandes males grandes remédios: fui à procura do rapaz, cortei-lhe o passo e perguntei-lhe, sem rodeios, o que é que queria para me deixar em paz.
«Uma assinatura da Revista, por 10 anos. Em troca, se o meu pai ma pedir, eu rasgo a página onde você fala dele»
«Seja!»
Ficámos todos a ganhar, e esta crónica já pôde ir para a editora sem que eu corra o risco de ser importunado.
Pois foi por já se julgar a salvo de troças que o Estultício, um dia destes, me confidenciou:
- Reconheço que a Internet, desde que usada com moderação, até pode ter alguma utilidade...
Ele acentuou de tal forma a palavra moderação, que me palpitou que me ia dar assunto para a próxima história.
Por isso sentei-me, sorridente, e o homem, mandando vir uma cerveja para si e um copo de água para mim (era ele quem pagava a conta), recostou-se, e começou:
- Você sabe que a minha firma é concorrente da Makro-Teknika. Por isso, achando que eles tinham razão em ter tantos "K" no nome, mandei também meter mais um no da minha firma. Tome lá um cartãozinho actualizado.
Tekno-Teknica passara a Tekno-Teknika.
E continuou:
- Eles dizem que quem tem "K" sempre escapa! O slogan até tem graça, mas parece que os negócios não lhes estão a correr muito bem...
E confidenciou, num ar de grande segredo, depois de olhar em torno:
- Eles andam a tentar exportar para o Afeganistão. É um mercado muito promissor e em que nós também estamos interessados. Assim, dei duas directivas de alta estratégia!
Ficou a olhar para mim, para ver a minha reacção, e eu fiz um ar de quem estava ansioso por ouvir o resto. Ele apreciou o facto e prosseguiu:
- Primeiro, vim a saber que eles tinham o telefone ligado à rádio. Quando as pessoas lhes ligam, em vez de apanharem com música, levam com uma rádio local!
Eu já tinha ouvido essa: o Grande Estultício, assim que soubera de que estação se tratava, apressara-se a anunciar, nela, a sua empresa!
Mas não se quedara por aí:
- Quanto à outra acção, a coisa já mete Internetes e isso pede outra bebida. Psst! Garçon!
Mandou vir mais uma cerveja para ele e outro copo de água para mim e continuou:
- O Batatinha chamou-me a atenção para o facto de que, na exportação, é preciso ter muito cuidado com as diferenças culturais. Sabe que os imbecis da Makro-Teknika levaram, por mão, garrafas de Vinho do Porto como oferta aos talibans?!
Custou-me a crer. Mas, como não me pareceu que ele estivesse a mentir, mostrei interesse em saber mais pormenores.
- Se calhar nem perceberam que caiu mal e, da próxima vez que lá forem, levam presuntos!
Eu acompanhei-o na inevitável gargalhada. De facto, era preciso ser-se refinadamente ignorante para não se saber que, para aqueles lados, o álcool e a carne de porco são proibidos!
Nessa altura, chegou o Sr. Batatinha. Cumprimentou-nos, sentou-se ao pé de nós, mandou vir o cafezinho e rapidamente se integrou na conversa:
- Fui eu quem aconselhou o Chefe a consultar a Internet. E foi lá que aprendemos essas coisas...
- E ainda bem! - comentou o outro - Veja só que até me preparava para enviar a esses mesmos clientes uns cartões de Boas-Festas com um Pai-Natal e renas!
E, rindo, deu uma grande palmada na mesa fazendo saltitar a caneca da cerveja.
A conversa, quanto a esse assunto, ficou por ali e desviou-se para o futebol.
Por isso, só mais tarde vim a saber que ele (não querendo perder muito mais tempo com pesquisas na Web) mandara simplesmente trocar os tais cartões do Pai-Natal por outros com o Presépio e o Menino Jesus!

Página Anterior
Topo da Página
Página Principal
Página Seguinte