Crónicas do Estultício


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A Planta da Casa

Agora, que já lá vai o Natal, é natural que os leitores estejam à espera de saber o que se passou em relação às prendas enviadas e recebidas pelo Estultício...

Mas o certo é que eu cada vez percebo menos acerca do modo de funcionamento dos interstícios do cérebro do nosso Grande Engenheiro:
Tão depressa faz questão em se manter agarrado como uma lapa ao rebarbativo lema «Progresso, só o estritamente indispensável!», como desata a procurar ajuda nas novas tecnologias (incluindo a Internet através do seu inseparável telefone celular) para resolver um qualquer problema que a mais ninguém lembraria!
Ora, da última vez, como se lembram, ele queria por força "armadilhar" um telemóvel que pretendia oferecer à sogra pelo Natal: tratava-se, nem mais nem menos, do que fazer a vida negra à pobre senhora.
A ideia dele é que deveria ser possível, «Utilizando a Internet, se necessário», pôr o aparelho a tocar músicas menos apropriadas como "A Internacional", durante a missa ou o "É mentira, é mentira", no confessionário!!. E tinha querido que eu o auxiliasse em tão estranha e pérfida operação tecnológica, mais própria para épocas carnavalescas!
Disse-lhe que não contasse com a minha ajuda (até porque os meus conhecimentos técnicos são muito limitados), mas parece que lá conseguiu fazer o que queria. Ou pior ainda!
O certo é que, quando o encontrei na esplanada do costume, logo a seguir ao Natal, e quando já me preparava para fazer a habitual pergunta idiota que toda a gente faz por esta altura («Então? Teve muitas prendas no sapatinho?»), reparei numa coisa muito estranha e até mesmo preocupante:
O Estultício, habitualmente tão alegre e expansivo, estava desta vez deveras abatido e triste, e o seu inseparável adjunto, o Sr. Batatinha, parecia que o procurava animar dando-lhe amigáveis palmadinhas no braço e no ombro, acompanhadas de amistosas palavras proferidas em tom fraternal!
Aproximei-me ainda mais e, quando já me ia a sentar para a habitual conversa (de que tanto preciso quando se aproxima a altura de escrever estas crónicas mensais), percebi o motivo de tão estranha situação. Pelo menos uma parte do motivo:
O nosso Grande Engenheiro estava cheio de pensos-rápidos e pintas de mercurocromo!
- Foi a sogra dele... - Começou a explicar o Batatinha, baixinho, e contendo o riso com a arte de dissimulação em que já se tornou mestre.
- Deixe lá isso, homem! - Interrompeu o Grande Chefe, pelos vistos incomodado com o rumo da conversa -. Falemos antes de outras coisas mais alegres!
E, para cortar cerce quaisquer perguntas adicionais da minha parte, levantou-se e foi ele mesmo ao balcão do café buscar mais uma cerveja para si e encomendar copos de água para mim e para o adjunto.
Não descansei, portanto, até à hora de me despedir. E, piscando o olho ao Batatinha, dei-lhe a entender claramente que gostaria que ele saísse também para podermos conversar à-vontade e desvendar o mistério.
E foi assim que, já longe dali, vim a saber tudo:
O Estultício sempre tinha oferecido o tal telemóvel à sogra e, por processos ainda não desvendados (mas que faziam supor longas noites de estudo tecnológico), lá conseguira pregar à senhora a tal partida (ou qualquer outra ainda mais refinada!).
Pensei então que - e a prova parecia estar à vista... - a megera não apreciara a graça. Além de que, a acreditar no nosso amigo e pelo que se via, devia tratar-se de pessoa terrível, irascível e bem robusta!
Mas, afinal, o que se passara não fora tão linear, pois não houvera pancadaria nem nada dessas coisas que povoam o anedotário internacional relacionado com sogras:
A senhora, um ou dois dias antes do Natal, até perguntara ao genro o que é que ele gostaria de receber como prenda!
E o nosso amigo, sorrindo e quase arrependido por já ter enviado por Correio Azul o tal telemóvel especial, respondeu que não tinha ideia, mas que achava que no escritório lá de casa «ficava bem uma planta decorativa e farfalhuda, pois sempre seria uma companhia».
«Ou então um animalzinho de estimação. Ao seu gosto, querida sogra» - Adiantara ele ainda.
E pude imaginar a D. Elisa (sabe-se lá se recorrendo também à Internet), depois de alguma indecisão entre uma piranha, um peixinho vermelho e uma begónia, a decidir-se por oferecer ao Estultício... uma PLANTA CARNÍVORA!

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