Crónicas do Estultício


12
A Língua da Sogra

Está aí o Natal, e muitos leitores querem saber se o Estultício voltou a enviar cartões de Boas-Festas (com o Presépio e o Menino Jesus) aos talibãns do Afeganistão...

De facto, seria interessante sabê-lo, mas na altura em que escrevo ainda é cedo para isso. No entanto, já prevendo essa situação, resolvi pôr-me em campo e ir recolhendo, com calma e tempo, material de escrita relacionado com o Natal do Grande Engenheiro. E foi assim que, ontem, me fiz encontrado com ele e levei a conversa para esse assunto.
- O que é que tem o Natal?! Está a contar que eu lhe ofereça alguma prenda?! - atirou-me ele num tom pouco próprio para início de conversa.
Não contava com essa reacção e respondi-lhe:
- Esperar receber prendas de um forreta?! Claro que não! Você é tão sovina que até dizem que, quando comprou um cata-vento, perguntou se não os havia feitos com frangos em vez de galos!
Achou imensa graça, descontraiu-se, puxou uma cadeira e, dando-lhe uma palmada no assento, convidou-me a sentar ao pé dele.
Em seguida, depois de confessar que a história do cata-vento de facto se passara, informou-me que era a sua vez de pagar a conta e mandou vir uma cerveja para si e um copo de água para mim. Por fim, aproveitando o facto de o Sr. Batatinha ainda não ter aparecido, aproximou a sua cadeira da minha e baixou o tom de voz, dando-me a entender que ia entrar em grandes confidências.
Preparei-me para ouvir.
- Sabe? A pouco e pouco, lá vou aderindo a estas modernices das "novas tecnologias"...
Sim, era verdade. Embora, de facto, MUITO devagar. Mas há uma coisa que serve como boa aproximação do Estultício ao mundo novo: o seu inseparável telemóvel de última geração. E foi devido a ele, como veremos adiante, que eu consegui levar a conversa para o tema que me interessava.
- Nestas coisas de prendas de Natal há que ter muito cuidado... Não posso fazer como o idiota da Makro-Teknika que ofereceu Vinho do Porto aos fundamentalistas muçulmanos!
E continuou, depois de beber um gole de cerveja.
- Vou oferecer apenas telemóveis, embora numa versão económica, sem a "adaptação sapatal" que tem o meu.
Referia-se, com essa divertida designação, aos aparelhos cuja bateria pode ser carregada graças a uma engenhoca nos sapatos - cujo movimento acciona um gerador. E, finalmente, entrou na parte confidencial da conversa:
- Eu precisava que você me ajudasse a preparar uma pequena brincadeira... - e baixou ainda mais o tom de voz, olhando em volta para se certificar de que ninguém o ouvia:
- Quero oferecer um telemóvel à minha sogra. Além de grande tagarela, a D. Elisa é aquilo a que se chama uma "rata de sacristia". Por isso, eu estava a pensar oferecer-lhe um aparelho muito especial. Digamos mesmo: personalizado!
Não percebi, e tive de esperar que ele acabasse a cerveja e se assoasse, pois já começava a engasgar-se com o riso.
- A ideia veio-me à cabeça por causa do Congresso do PCP. Li as notícias referentes aos renovadores e aos ortodoxos, informei-me acerca do marxismo-leninismo e, talvez por rimarem, na minha cabeça misturou-se "A Internacional" com o Natal.
Eu cada vez entendia menos! Mas não tardei a perceber:
Para começar, o Estultício queria programar o aparelho para tocar a música "Para Elisa", de Beethoven, quando chegasse uma chamada para a D. Elisa!
Achei a ideia verdadeiramente simpática. Por isso, ainda menos percebi porque é que ele falava tão baixinho. E o que é que isso teria a ver com política?!
Mas o Estultício contou o resto:
- Queria que você me ajudasse. Quem sabe se, usando a Internet, não será possível que a música passe a ser "A Internacional" quando lhe chegar uma chamada e ela estiver na missa? Não era uma delícia?
Bem... agora a coisa rimava mais com Carnaval do que com Natal! Disse-lhe que, mesmo que fosse possível, não me parecia muito próprio fazer isso, pelo que não contasse comigo para essa brincadeira. Além de que eu não acreditava que a senhora deixasse o aparelho ligado no interior da igreja.
- Pois aí é que você se engana! - desabafou - Para aquela megera todos os lugares servem para a má-língua! Mas, paciência... Já vi que não posso contar consigo... - rematou o Estultício sorvendo, pensativo, o último golo de cerveja e limpando a espuma do bigode.
Porém, de súbito, pareceu ver reacendida a esperança:
- Tem razão. De facto, "A Internacional" era capaz de ser pouco próprio. Olhe lá, e fazer com que o aparelho toque o "É mentira, é mentira..." quando ela estiver no confessionário?

Página Anterior
Topo da Página
Página Principal
Página Seguinte