Crónicas do Estultício


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O grito de guerra

Acabadas as férias de Verão, o Eng. Estultício recorreu à Internet (quem diria?!) para obter algumas informações suplementares que tornassem o respectivo relato mais credível e interessante...

Talvez estejam recordados da última aventura do nosso amigo Estultício.
Com a minha ajuda, e utilizando o seu telemóvel de última geração com ligação à Internet, o Grande Homem escolhera um incrível destino para as suas férias.
Assim, depois de uma longa viagem para o outro lado do planeta, fora parar a uma aldeia de selvagens que, à primeira vista, lhe pareceram antropófagos.
Como é evidente, o pobre homem não ganhou para o susto.
Mas, verdadeiramente, a culpa dos cabelos brancos que nesse dia lhe nasceram foi de um software de tradução automática que, em vez de «Nós como tu!» acabou por pronunciar a aterradora frase «Nós comemos tu!».
O certo é que, uma vez regressado a Portugal, restabelecido e livre de perigo, quem o quisesse ouvir poderia escutar relatos de incríveis aventuras e pretensa heroicidade. Só que, agora, não apenas nas florestas virgens (por onde, de facto, tinha andado nas férias) mas, aproveitando o balanço, também em muitos outros sítios do mundo, em pleno coração de guerras, rebeliões e intermináveis combates sangrentos!
Quem me desvendou o segredo de tão estranha atitude foi o seu colaborador, o Sr. Batatinha.
Vim a saber por ele que o Estultício recorrera aos jogos de computador que o filho agora usava, informara-se detalhadamente sobre armas, tácticas e estratégias, e ainda (coisa espantosa!) recorrera à Internet, sempre através do seu inseparável telemóvel, para obter mais alguns dados sobre assuntos correlacionados que pudessem credibilizar as aventuras com que tencionava assombrar amigos e conhecidos.
E foi assim que, há alguns dias atrás, fui dar com ele, no café, rodeado de uma grande e interessadíssima assistência.
Ele e o Batatinha eram os únicos que estavam sentados. Os outros, uma boa vintena de pessoas (pois tantas eram as que estavam nessa tarde por ali), ouviam, em pé e em silêncio respeitoso, frases e descrições de extraordinários acontecimentos.
Não faltavam os relatos de terríveis, sangrentos e intermináveis combates corpo-a-corpo, de assaltos e desembarques (de pára-quedas ou de navios anfíbios) nos quais - a acreditar no narrador - o Estultício fora o protagonista mais valente e - já se vê - o herói principal!
E também não faltava (em cima da mesa e com os canos a roçar ameaçadoramente os mais chegados) a carabina que ele levara, de facto, para a selva, e cuja coronha ele agora acariciava com a mão esquerda como a uma velha e inseparável amiga perante o temor e o respeito da assistência silenciosa e boquiaberta.
Ele não me viu chegar e eu também não me mostrei logo. Preferi ficar atrás dos outros, divertido e a escutá-lo em silêncio, para ver até onde ia a sua criatividade (que é um termo muito mais simpático do que aldrabice...).
Dizia ele, no fim de uma dessas descrições terríveis em que, sozinho, dera cabo de um batalhão de comandos inimigos:
- Comigo é assim: na guerra, ou mato ou morro! E sempre me dei bem com essa divisa, que é o meu grito de guerra desde o euprimeiro combate em que estive envolvido!
Os outros, agora, só diziam «Ah! Oh!» (enquanto ele emborcava a caneca de cerveja). E ninguém reparava no sorriso maroto que assomava aos lábios do Sr. Batatinha.
E foi este quem, um pouco mais tarde e já no autocarro, me desvendou o essencial do segredo:
- Sabe? O Grande Chefe também andou a fazer pesquisas na Internet para encontrar um bom "grito de guerra", para dar mais efeito e credibilidade aos relatos das suas aventuras. Como não encontrou nada e eu soube disso pelo filho, eu mesmo lhe enviei uma mensagem anónima com essa coisa do «Ou mato ou morro!». Só que não lhe expliquei tudo, evidentemente, pois tratava-se de uma brincadeira minha...
Riu-se, com gosto, e concluiu:
- Ele nunca soube que fui eu quem lhe escreveu, é claro! Ficou todo contente e fartou-se de agradecer ao "amigo anónimo". Sabe? É que essa era a minha divisa quando andava na tropa, mas a que eu dava uma interpretação que não era lá muito heróica: «Ou MATO ou MORRO» queria dizer: se o inimigo viesse do MATO, eu fugia para o MORRO. E se viesse do MORRO...

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