Crónicas do Estultício


Introdução:
No Número 9 da «Internet Prática» (Janeiro de 2000), deu-se início à publicação das «Crónicas do Eng. Estultício», para as quais foi feito, pelo cartoonista José Abrantes, um "boneco" próprio.
Quanto ao texto, foram elaboradas duas versões, uma mais resumida do que a outra.
Por motivos de espaço, foi publicada, em papel, a mais reduzida. Dado que aqui não há problemas de espaço, disponibiliza-se a versão mais longa.
A partir de agora, as «Crónicas do Eng. Estultício» serão postas on-line na primeira semana do mês seguinte à sua publicação em papel.


1
A Mensagem Secreta

No número anterior da Revista contámos como foi o desagradável encontro do autor destas crónicas com um tal Eng. Estultício, Dono e Senhor da Tekno-Teknica, partidário do uso das "novas tecnologias" desde que usadas com MUITA parcimónia.
«Progresso, só o estritamente necessário», é o seu lema.

Pois é... Eu acho que vou ter de me habituar.
Mas vai ser muito difícil! É que, agora, sempre que sai uma qualquer notícia acerca do Eng. Estultício (ou da sua Tekno-Teknica) há grandes probabilidades de que ele a leia e, mais cedo ou mais tarde, me venha pedir satisfações pelo seu teor se o mesmo não lhe agradar.
Ou, então, vou ter de mudar de tema, pois já não aguento por muito mais tempo esta tensão psicológica que, ainda por cima em dias certos do mês, se apodera de mim!
E eu até já sei como a coisa se passa. É assim:
Um dia depois de a Revista sair, ele lá está, invariavelmente, sentado à mesa do café com o Sr. Batatinha (o seu incontornável vendedor). E, como sabe que eu tenho mesmo de passar ali a caminho do Metro, comporta-se como um caçador à espera da presa que tem como certa.
- Venha cá, seu maroto! Venha cá! - chamou-me ele, da última vez, com o seu riso sardónico com que tanto embirro - Vamos ter muito que conversar!
E lá fui eu para ao pé deles, fazendo um forçado sorriso e adiantando, com voz pouco convincente, que já estava atrasado, mas dispondo-me a ouvir, se não demorar muito, o que ele tinha para me dizer...
Pois na última crónica eu referia-me, em termos chocarreiros, ao facto de ele ter uma colecção infindável de CDs (ofertas de revistas) que lhe permitiam aceder gratuitamente à Internet.
E gozava, já se vê, com a sua sovinice e com o caricato de ele ter de mudar de endereço de correio electrónico ao sabor dos fornecedores do brinde.
Mas o texto tanto se arrastou por aqui e por ali que acabou por perder completamente a actualidade:
Entretanto, a Internet gratuita tornou-se uma realidade e ele, evitando a ligação a pagar, é que tinha tido razão! Ah! E decerto o homem não ia deixar passar em branco essa fífia minha!
De facto, foi com mal disfarçado gozo que ele puxou uma cadeira e, dando-lhe uma sonora palmada no estofo, intimou:
- Deixe-se lá de pressas, que hoje vai ter de me ouvir!
Mas, para meu grande espanto, não era o assunto da gratuitidade do acesso à Internet que o levava a chamar-me. Era outra coisa, muito mais rebuscada:
- Vai ver que até o amigo Batatinha me vai dar razão acerca dos perigos do progresso exagerado!
Bem, o assunto pede uma pequena introdução:
A enorme expansão da Internet a nível mundial trouxe consigo o disparar do fenómeno do correio electrónico, facto que obriga a que os seus utilizadores imponham, a si próprios, alguma disciplina.
E já não falo das regras mais elementares de boa-educação (como evitar o uso exagerado das maiúsculas, a obrigação de responder às pessoas que nos escrevem, etc.).
Falo da necessidade de alguma contenção pois, além das inevitáveis anedotas, avisos de falsos vírus e cadeias-da-felicidade que enchem as redes de comunicação e fazem perder um tempo que pode ser precioso, a coisa pode tornar-se uma autêntica praga!
Mas, é claro, tudo neste mundo tem prós e contras e a pouco e pouco lá se vão arranjando os remédios ou, pelo menos, os paliativos.
Para o caso de que aqui falamos, os remédios são, essencialmente, dois:
A autodisciplina (sobriedade e contenção da verborreia) e a filtragem.
Acho que sabem, até bem demais, a que me refiro, pois hoje em dia qualquer programa de correio electrónico que se preze aceita meia-dúzia de regras do tipo:
«Se vier do Xico: passa à Xica»
«Se for do Venantílio: cópia para o Oliveira»
«Se for do Chefe: estou em reunião»
Então para ao junk-mail os filtros são uma bênção:
«Tudo o que diga: damos-mais, quer-ganhar-mais?, oferecemos-lhe, fortuna, balúrdio-de-massa, vá-de-férias-para-o-Hawai, etc... APAGAR DE IMEDIATO».
-Claro que tive de mandar programar os computadores da Tekno-Teknica com essas regras - explicava o Eng. Estultício - senão a coisa era um pandemónio, um desassossego. «Progresso, só o estritamente necessário!». Não é assim, ó Batatinha?
O outro mantinha-se muito encolhido, como se estivesse com frio.
- Acorde! Você está para aí calado, parece um sapo! Estamos a falar de coisas que o interessam, homem! Internetes, e-mails... essas modernices todas! Quanto ao resto... já esqueci, não se preocupe!
Mas, até aí, tudo bem. À parte o misterioso fim da frase anterior todas as explicações só demonstravam a sabedoria do Grande Chefe. E dava gosto ver como ele, até há pouco tão contido em matéria de progresso digital, estava a actualizar-se!
Perguntava-me, pois, e a mim mesmo, o que é que ele, então, quereria dizer-me ou contar-me. Sim, porque ele tinha, nitidamente, alguma na manga...
Mas o certo é que o homem não tinha pressa nenhuma!
Mandou vir outra cerveja, recostou-se, e lá prosseguiu, pausadamente, mas deixando antever uma gargalhada que havia de vir no fim que ele habilmente preparava:
- Ora acontece que, embora os meus funcionários tenham de ser poupados a esses anúncios, eu cá gosto sempre de estar informado. Por isso, antes de essas mensagens irem para o lixo, passam todas por mim. Eles, coitados, é que não sabem...
O Sr. Batatinha começou a coçar-se... E o outro continuou:
- Pois aqui o pirata do nosso amigo andou, sem eu saber, a negociar a sua mudança para a concorrência! - E olhou para o colaborador que, não sabendo já onde se meter, procurava disfarçar, tentando apertar pela quinta vez os atacadores dos sapatos que, afinal, eram de pala.
- Agora imagine o que aconteceu quando, ao fim de muitas negociações nas minhas costas, esses piratas lhe enviaram um e-mail.
E, levantando-se ligeiramente, meteu a mão no bolso direito das calças e tirou dele um papel muito amarfanhado, enquanto comentava: «Eu cá mando sempre imprimir os e-mails...»
Desdobrou o papel com um largo sorriso, espalmou-o em cima da mesa e, pondo os óculos de ver ao perto, leu, deliciado, o que lá constava:
«Seja, Sr. Batatinha! Aceitamos pagar-lhe a fortuna que você quer! Já lhe enviámos 5 mails e você não responde! Quer ganhar mais, é?! Pronto! Oferecemos-lhe 100%! E, quanto a esse idiota - como você chama ao seu Chefe - ele que vá de férias para o Hawai!»

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