Colaborações no Diário Digital


A «firewall» do Sr. José

I - Há dias, e a propósito do facto de Marques Mendes rejeitar invariavelmente as ofertas de colaboração de António Borges, comparei esse comportamento ao de uma «firewall», primária mas eficaz. No entanto, reconheço que talvez tenha havido algum exagero da minha parte, não pelo facto em si mesmo, mas por lhe atribuir alguma importância.

É que essas atitudes de sistemática rejeição (que têm mais de «cão de Pavlov» do que de lógica normal) são moeda-corrente em política - veja-se o que, em geral, fazem os partidos no governo (nomeadamente quando têm maiorias absolutas) relativamente às propostas das oposições, mesmo quando estão em causa questões de regime com consequências muito para além do seu previsível mandato.

Ora, como se sabe, às vezes as associações-de-ideias pregam-nos grandes partidas, e foi o caso da recente questão do novo PGR, que acabou por trazer à minha memória uma outra «firewall», a do Sr. José porteiro:

II - Os mais velhos lembrar-se-ão, com certeza, dos tempos em que muitos prédios tinham porteiros fardados: eram, invariavelmente, pessoas com poucas ou nenhumas habilitações mas que, uma vez envergado o uniforme de serviço (de aspecto paramilitar), se transfiguravam, quase sempre, em implacáveis ditadores de opereta.

Ora, como sucede com toda a gente que conheceu essa realidade, também eu me lembro do primeiro porteiro do prédio onde nessa época morava: era o temido senhor José, um grunho obeso e analfabeto, alcoólico e violento, que pontapeava cães e espancava a mulher quando não estava a exercer o seu poder-absoluto sobre quem podia e não podia transpor a porta da rua - acto este que fazia depender de um «dress-code» que ele mesmo arbitrava, caso a caso, entre uma escarradela e dois arrotos. Enfim, uma personagem grotesca que ainda tem lugar nas minhas memórias dos terrores infantis e de quem, a propósito disto e daquilo, sou forçado a recordar-me:

Umas vezes, é por causa da crueldade contra animais; outras, por causa da violência doméstica. Mais recentemente, foi por causa de peripécias relacionadas com «dress-codes» insulares e também por casos de quero-posso-e-mando que as maiorias-absolutas permitem; e, nos últimos dias, até nem faltou (a propósito de «quem pode e não pode passar»), o ridículo «No passarán!» de Souzelas...


Publicado no "Diário Digital" em 30 Agosto 2006

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