Colaborações no Diário Digital


As rábulas da semana

I - Mãos ao ar!

Quando a polícia, no passado dia 15, irrompeu na redacção do «24 horas», começou por ordenar: «Tirem as mãos dos teclados!» - o que, hoje em dia, se pode considerar uma exigência «tecnologicamente atrasada» porque é perfeitamente possível apagar tudo e mais alguma coisa sem teclar nada:

Pode-se fazê-lo recorrendo apenas ao rato, ou usando computadores de «comando vocal» - que em breve, pelos vistos, serão as coqueluches das redacções dos jornais portugueses. É que basta dizer (mesmo em surdina) «Formatar disco rígido»... e já está - para o bem e para o mal!

Ah! E o software é tão inteligente que, além de dispensar o «Se faz favor», está receptivo a ordens adicionais como «Despacha-te, que está aí a PJ!»

II - Rapida... mente

Como se sabe, o povo português é muito pouco dado a expressões rigorosas, e as pessoas com formação jurídica parecem sê-lo ainda menos.

A prova disso é que todos convivemos, muito satisfeitos, com expressões tão vagas como «um dia destes», «um certo tempo», «com urgência», «à tardinha» - sendo que o caso mais curioso é o «um bocado», pois até tem um sub-múltiplo, «um bocadinho». E mais uma vez pudemos confirmar essa pecha nacional a propósito do escândalo das famigeradas disquetes da PT:

Na mesma semana em que referia - e bem - que expressões como «um prazo razoável» são demasiado vagas, Jorge Sampaio pedia que a averiguação acerca do referido escândalo fosse «rápida».

Passado um mês, Alberto Costa reconheceu que a investigação estava a demorar «muito tempo», e Souto Moura vinha dizer que ela «vai demorar o tempo que for necessário».

O certo é que todos eles me fazem lembrar, por contraste, um chefe que eu tive e que começava logo por ensinar aos jovens que iam trabalhar com ele que nunca deviam usar expressões desse tipo, pois são tão imprecisas que cada um as entende como mais lhe convém.

E contava sempre a rábula do marido que, ao ver a mulher a preparar-se para sair de casa, a interpela:

- Olha lá, aonde é que tu vais?

- Aonde eu quiser.

- E a que horas voltas?

- Quando me apetecer.

O homem, então, dá um berro - e encerra o assunto, demonstrando a sua autoridade:

- Mas nem um minuto mais tarde, ouviste?

III - O ministro e o soldador

Um dia destes, um ministro italiano envergou (e exibiu na TV) uma T-shirt com uma caricatura de Maomé; pudemos ouvir as gargalhadas do público, e ficar a saber que a consequência imediata foi o assalto ao consulado italiano em Benghazi, na Líbia, do qual resultaram 11 mortos.

Decerto o cavalheiro dirá que apenas exerceu o seu direito à liberdade de expressão, embora na «versão king-size» que inclui «desafiar, blasfemar e humilhar» o Islão - para usar as palavras do jornal dinamarquês que lançou a moda.

- Se estão ofendidos, recorram aos tribunais, protestem pacificamente! - diz-se por estes lados, fazendo lembrar a história do Chico-Soldador que deixou cair um pingo-de-solda no olho do ajudante:

Quando este, furioso e aos pinotes, lhe chamou todos os nomes, o outro, muito ofendido, retorquiu:

- Também não é preciso reagires assim! Bastava-te dizer: «Ó Chico, se fazes favor vê se tens mais cuidado, porque estás a deixar cair pingos-de-solda no meu olho».


Publicado no "Diário Digital" em 21 Fevereiro 2006

Página Anterior
Topo da Página
Página Principal
Página Seguinte