Colaborações no Diário Digital


Avessos ao direito?

Tendo como pano-de-fundo uma mistura explosiva de insensatez e incompreensão (tão propícia às palavras e actos dos Ferrabrazes de-trazer-por-casa), a polémica em torno das famigeradas caricaturas de Maomé parece estar a resumir-se à seguinte questão:

O que deve prevalecer?

O direito de não se ser insultado publicamente na sua crença religiosa, ou o de publicar o que se quiser (e que, no entender do jornal dinamarquês, incluía o direito de «desafiar, blasfemar e humilhar» o Islão - para usar as cruas palavras do seu próprio Editorial)?

Sucede que «os direitos que se têm» não dependem dos desejos de cada um - mas sim do que está estabelecido na lei.

Por isso, o melhor é ver o que, pelo menos por cá, diz o Código Penal - que nos diz o que sucederia a um cartoonista português se fizesse o mesmo que o seu colega da Dinamarca: «Artigo 251.° - Ultraje por motivo de crença religiosa: 1- Quem publicamente ofender outra pessoa ou dela escarnecer em razão da sua crença ou função religiosa, por forma adequada a perturbar a paz pública, é punido com pena de prisão até 1 ano ou com pena de multa até 120 dias (...)».

Curiosamente, o mesmo jornal (que se recusou a publicar caricaturas de Cristo porque poderiam ser ofensivas) escreveu recentemente: «Nunca, em nenhum momento, tivemos consciência da extrema sensibilidade dos muçulmanos (...) face a esta questão».

Mas o certo é que se pode gabar de ter conseguido, apenas com 12 bonecos, o que Saladino não conseguiu com muitos milhares de ferozes guerreiros!

--

Curiosidade: Há um par de anos, um responsável de uma empresa portuguesa muito conhecida, de visita a um país onde os fundamentalistas islâmicos estavam em maioria, levou como prenda (para oferecer, em público, ao representante do seu cliente) umas belíssimas garrafas de Vinho do Porto.

Perante a perplexidade que a "gaffe" provocou, fez questão de explicar que o «Vinho do Porto não é vinho»; mais tarde, num jantar oficial - onde foi o único a pedir a carta de vinhos -, aproveitou para esclarecer os muçulmanos presentes que «o tinto até faz bem ao colesterol».

Felizmente, quando Dezembro chegou, os seus superiores puderam minimizar os danos de imagem enviando, aos eventualmente ofendidos, cartões de Feliz Natal com um lindíssimo presépio...


Publicado no "Diário Digital" em 13 Fevereiro 2006

Página Anterior
Topo da Página
Página Principal
Página Seguinte