Colaborações no Diário Digital


O que é feito do voto electrónico?

Como as ideias são como as cerejas, a espantosa frase «Eu nunca tinha visto um programa Excel» (proferida por Souto Moura na passada sexta-feira) trouxe-me à lembrança, pelo motivo que adiante se verá, um outro assunto: o VOTO ELECTRÓNICO - tecnologia que se destina especialmente a quem está longe da sua assembleia-de-voto ou incapacitado de lá ir.

Naturalmente, há muitas pessoas que receiam que, assim, o seu voto se possa transviar.

É uma preocupação legítima; mas quando fazem uma transferência pelo Multibanco passa-lhes pela cabeça que o dinheiro possa ir parar aos bolsos de outra pessoa que não o destinatário?

E quando indicam o seu NIB (para reembolso do IRS, p. ex.) imaginam que algum Zé-do-Telhado lhes roubará o dinheiro pelo caminho?

Claro que não.

Então por que receiam que um simples voto, enviado electronicamente por sistemas seguros mais do que testados por esse mundo fora (e, ainda por cima, sob controlo de todos os interessados!), possa ir parar a quem não querem?

Em Portugal, recentemente, gastaram-se rios-de-dinheiro em protótipos e experiências; porém, logo que o governo mudou o assunto morreu, pelo que em pleno século XXI ainda são possíveis situações como a de um familiar meu que teve de percorrer mais de 650 km para ir votar!

Uma parte da justificação para tudo isso tem de ser procurada na pecha portuguesa que nos leva a desprezar tudo o que já foi feito e recomeçar do zero. Há sempre alguém que, achando que todos os outros são burros, quer reinventar-a-roda - nem que ela venha a ser quadrada.

Mas a maior parcela da explicação deve ser procurada, porventura, junto de pessoas que proferem frases como a que no início se transcreve...

NOTA: Este assunto já é «mais velho do que a Sé de Braga». De qualquer forma, vale a pena visitar www.votoelectronico.pt/, site que estava mais vivo quando não se falava tanto de «choques-tecnológicos». Entretanto, actos tão simples como votar para Presidente da República (mesmo pessoalmente e de papelinho na mão...) não podem ter lugar em nenhuma Assembleia-de-voto diferente daquela em que se está recenseado.

Segundo me dizem, é a Comissão Nacional de Protecção de Dados que tem vindo a criar esses entraves.

Se assim é, se calhar está na hora de ela criar uma delegação lá para os lados dos países bálticos: «En effet, l'Estonie, souvent à la pointe en Europe en matière des technologies de l'information, a innové cette semaine en lançant le vote par Internet pour tous, à l'occasion des élections municipales. De lundi à mercredi, les électeurs ont la possibilité de voter dans tout le pays avec leur ordinateur, de chez eux ou bien de leur bureau. Ceux qui préfèrent déposer un bulletin papier dans l'urne se déplaceront dimanche 16 octobre. («Le Monde», 12 Out 05)»


Publicado no "Diário Digital" em 23 Janeiro 2006 e transcrito no blogue "Abrupto" no dia 21 (sem a NOTA)

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