Colaborações no Diário Digital


Rábulas de Ano Novo

I - Em maré de «economias»

Em tempos que já lá vão, o castelo-dos-mouros, em Sintra, correu o sério risco de ser vendido em leilão (como pedreira pronta-a-usar!) a um cavalheiro que queria fazer negócio com «aquela calhausada» toda. Felizmente, apareceu também a licitar «o imóvel» o príncipe consorte D. Fernando II a quem, nesse seguimento, devemos a recuperação do castelo, a construção romântica de toda a zona da Pena, e muito, muito mais, como se sabe.

Claro que, à primeira vista, dá que pensar como é que um estrangeiro se mostrou mais interessado em preservar um castelo conquistado por D. Afonso Henriques do que um português-de-gema - como parece que era o senhor que, pelos vistos, queria transformar um monumento nacional em paredes de casa e muros de quinta.

Mas o certo é que, nestes assuntos, não é a nacionalidade o que mais conta, mas sim outras realidades mais profundas, como a sensibilidade e a cultura de cada um.

Ah! E o dinheiro, claro! Já me estava a esquecer do dinheiro, o potente motor que, em breve, se encarregará de transformar num monte de entulho a casa onde viveu e morreu Almeida Garrett - para lucro de alguns, gozo de mais uns quantos e vergonha de todos nós, lisboetas e portugueses.

E o pior é que não há nada a fazer pois, segundo nos disseram, o edifício vai ser demolido porque a Câmara Municipal de Lisboa não tem dinheiro para «adquirir o imóvel, reabilitá-lo, musealizá-lo, geri-lo e mantê-lo» - para usar as palavras cruas e sem rodeios da Sra. D. Gabriela Seara, vereadora do Licenciamento Urbanístico.

Que diabo! A gente sabe que o proprietário é o actual ministro da Economia. Mas isso chega para explicar este «súbito acesso de economia» de toda esta ilustre (e decerto ilustrada) gente?! NOTA: Repare-se como mais depressa se deita abaixo uma casa destas do que aquelas que, escandalosamente, ocupam zonas protegidas do domínio público. Como se sabe, no Algarve (e depois de terem passado ao esquecimento as da Arrábida pelos motivos que se imaginam), apenas foram demolidos três apoios-de-praia! O resto ficou adiado para (pelo menos...) daqui a dois anos - depois de muito diálogo ao melhor estilo de Guterres.

II - O almocinho de Sócrates

Como não podia deixar de ser, as férias de José Sócrates - ora no Quénia, ora nos Alpes Suíços -, prestam-se a dois géneros de comentários totalmente contraditórios:

Por um lado, dir-se-á que «ele não é mais nem menos do que os outros portugueses todos e, se as paga do seu bolso (e com dinheiro que ganhou com o seu trabalho) ninguém tem nada com isso». E é a pura verdade.

Por outro lado, também não faltará quem diga que, «estando o país a atravessar dificuldades, e sendo precisamente ele quem exige sacrifícios ao povo, deveria ser o primeiro a dar o exemplo de contenção». E é também a pura verdade.

Então em que ficamos?

O que sucede é que a realidade é multifacetada, pelo que ambas as argumentações têm lógica e são aceitáveis. Tudo depende, muito mais do que do posicionamento político de cada um, da sensibilidade para com as coisas da vida.

E é precisamente esse aspecto da sensibilidade que me faz pensar nas pessoas que estão num restaurante a comer do bom e do melhor quando aparece um pedinte com fome.

Claro que ela diz para si mesma que «não é mais nem menos do que os outros portugueses todos e, se paga a refeição do seu bolso (e com dinheiro que ganhou com o seu trabalho), ninguém tem nada com isso».

E, mais uma vez, é a pura verdade. Só há um pequeno pormenor: é que o comensal deverá ser A ÚLTIMA PESSOA NO MUNDO a dizer ao pobre que «coma menos, pois uma dieta faz bem»...


Publicado no "Diário Digital" em 3 Janeiro 2006

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