Colaborações no Diário Digital


Rábulas de fim-de-ano

I - Os atrasadinhos

Já se sabe que mesmo as acções mais ignóbeis encontram sempre quem as defenda.

Por isso, não estanhei quando, recentemente, duas pessoas minhas conhecidas defenderam a tese - sem fazer humor - de que «não tem mal nenhum que os jogadores do Vitória de Setúbal estejam com dois meses e meio de salários em atraso, pois ganham muito; e assim até jogam melhor, como se tem visto ultimamente».

Ora sucede que eu tenho alguma confiança com uma delas, pelo que me preparei para contra-argumentar. Mas, depois, pensando melhor, achei preferível não perder tempo com isso - e mudei de assunto:

- Mas diz-me lá o que é que fazes aqui por estes lados? - perguntei-lhe.

- Vim ter com a patroa - respondeu, sorridente - Vamos às compras, e até já estou atrasado...

E, sem esperar por mais perguntas, esclareceu:

- A malta hoje não trabalha. Estamos em greve por causa dos salários em atraso.

II - Uma receita para a receita

Elas vão-me desculpar, mas quando oiço certas entidades oficiais a queixarem-se de falta de dinheiro, não as levo a sério. E digo isso, porque basta-me chegar à janela para ver a fortuna que esbanjam imperdoavelmente:

Não é preciso fazer grandes contas de cabeça para se saber que as multas que NÃO são cobradas à infinidade de carros que atafulham os passeios da minha rua dariam para minorar (ou até resolver de vez) o famigerado problema da «falta-de-recursos».

Mas, se não se quer AUMENTAR AS RECEITAS por essa via, então podiam DIMINUIR-SE AS DESPESAS, mandando para a reforma antecipada todos os que não fazem aquilo para que são pagos pelos contribuintes: no caso presente, os agentes de autoridade que não multam, no que ficariam muito bem acompanhados pelos seus superiores que, pelos vistos, lhes toleram (se é que não encorajam) a inacção.

Mas, se também não se quer ir por aí, pode-se então recorrer a uma outra fonte de rendimento:

Esta, veio-me à mente no seguimento da notícia do «DN» que nos deu conta de que a PSP apreendeu o dinheiro de alguns reformados que estavam a jogar às cartas no Ajuda Clube - repetindo o que já fizera, há algum tempo, no Príncipe Real.

É que isso deu-me mais uma grande ideia para aumentar as receitas do Estado! Não, não se trataria de confiscar as carteiras de velhinhos que jogam à bisca! A ideia era a criação de um imposto sobre o RIDÍCULO.

III - Os arrasa... dores

Como se sabe, estava - finalmente! - anunciado para agora o início da reposição da legalidade no Algarve, onde umas centenas de pândegos (com a cumplicidade de quem todos sabemos ou imaginamos) se apropriaram, para seu gozo e recreio, de largas áreas do domínio público que pertencem a todo o povo português.

Afinal (mas sem espanto), essas justiceiras acções resumiram-se à demolição - simbólica, ainda o dizem! - de três apoios de praia. Quanto às demolições a sério, ficaram adiadas para daqui a dois anos!

Cereja em cima do bolo: imagine-se quem é que vai pagar tudo!

IV - Se há «projectos», já estamos descansados!

Ficámos recentemente a saber que, por falhas em 18 repartições de Finanças, o Estado perdeu... 64 MILHÕES de euros de IVA não cobrado!

Foi o resultado de mais uma das famosas «auditorias arrasadoras» do Tribunal de Contas que - justiça lhe seja feita - faz o que lhe compete.

Quanto à outra parte do problema (responsáveis, etc) estamos conversados há muito tempo: vão continuar a «andar por aí», como diz Santana Lopes.

Entretanto, no «Diário Digital» (citando o «Diário Económico») lê-se também: «... projectos que as Finanças estão a pôr em marcha para evitar a prescrição de processos, "que este ano deverá atingir um valor recorde"».

NOTA: Se ajudar alguma coisinha meter um ou dois crucifixos nalguma Repartição de Finanças... por mim, não me oponho.


Publicado no "Diário Digital" em 24 Dezembro 2005

Página Anterior
Topo da Página
Página Principal
Página Seguinte