O Grande Kalynadas
Numa altura em que tanto se fala em abolir exames de Português, talvez seja interessante referir um caso que acompanhei de perto - trata-se da curiosa história do Kalynadas, um cavalheiro assim baptizado no seguimento das peripécias que seguidamente se narram.
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Em tempos, conheci de perto um patusco extremamente vaidoso e malcriado que, como todos os dessa laia, não aceitava críticas fosse a propósito do que fosse; e as pessoas que o rodeavam, tendo em conta o seu mau feitio, evitavam dizer-lhe alguma coisa - ou até mesmo falar com ele.
Ora, como toda a gente sabe, indivíduos desses caem facilmente no ridículo, e ele não era excepção:
Tendo «conflitos mal resolvidos com a língua-pátria», os seus erros de ortografia (com que generosamente polvilhava cartas, faxes, e-mails e actas de reuniões) faziam o desespero dos seus chefes - mas também as delícias dos colegas e subordinados que tinham a suprema ventura de lhes pôr a vista em cima.
Até que, um dia, alguém que tinha mais confiança com ele lhe chamou a atenção para uma barbaridade do género «atenção» escrito com dois «S».
O cavalheiro, furioso com o reparo, recusou-se a corrigir o erro, fazendo ali mesmo questão de mostrar como o fax (pois era o que estava em causa) seguiria mesmo assim! E, perante o gozo de alguns e o pasmo da maioria dos circunstantes, declarou, enquanto carregava na tecla «enviar»:
- As regras do meu Português sou eu quem as faz!
Como se compreende, essa história entrou de imediato para o fabulário da empresa.
Mas ainda teve um delicioso post-scriptum:
Algum tempo depois, e a propósito desse mesmo assunto, o indivíduo, pretendendo que ficasse claro que não cometia erros de ortografia, proclamou:
- Eu nunca cometo erros de caligrafia!
Coitado... Lá devia pensar que caligrafia vinha de calinada...
Publicado no "Diário Digital" em 15 Dezembro 2005
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