«Crer» é poder?
I - «CRER» É PODER?
É frequente ouvirmos conversas deste género:
- Não creio que a nossa Selecção ganhe o Campeonato...
- Então, se não queres que Portugal ganhe, não és patriota!
Em 10 palavrinhas apenas… ficam patentes dois equívocos:
O primeiro consiste em pensar que a honra da Pátria pode estar entregue a uma dúzia de jovens que fazem do pontapé-na-bola a sua profissão. Muita gente acredita nisso, mas também não é daí que vem mal ao mundo.
O segundo é de outra natureza, porque revela uma preocupante falta de compreensão do indignado interlocutor face ao que o primeiro disse:
Este limitou-se a constatar um facto: pelo que conseguiu apurar, não lhe pareceu provável que a tal vitória viesse a acontecer, sendo totalmente omisso quanto ao que desejava que sucedesse.
Mas o outro, pessoa de raciocínios primários, confundiu as duas coisas:
Para ele, «crer» e «querer» são exactamente o mesmo - sintoma evidente dos difíceis combates que trava com a língua portuguesa.
Recentemente, também eu fui vítima dessa incompreensão:
Ao afirmar que CREIO que, pelo caminho que insiste em trilhar, a nossa Esquerda vai dar de bandeja a vitória a Cavaco Silva, cérebros menos maleáveis entenderam isso como sendo o que eu QUERIA que sucedesse.
O certo é que, muito pelo contrário, me faz muita pena ver a esquerda (em geral) e Mário Soares (em particular) a auto-menorizarem-se, colocando-se face a Cavaco Silva em posição tal que o dão como vencedor antecipado - apenas discutindo se ele vai ganhar à primeira volta ou à segunda!
Mas, como insistem no erro crasso de praticamente só falarem dele - e cada vez mais! -, fazem-me lembrar a rábula do carpinteiro-cegueta que, em vez de acertar nos pregos, «espancava» as tábuas:
Como se recusava-se a usar óculos, tentava resolver o problema… martelando com mais força!
NOTA: Quando Soares, na entrevista à TVI, praticamente chamou «labrego» a Cavaco Silva, trouxe-me à memória a velha história do rato do campo e do rato da cidade. Então ele não sabe que é para o rato menos cosmopolita que vai, quase sempre, a simpatia dos leitores? E olhe que a distância entre leitores e eleitores não é grande...
II - As insondáveis sondagens
Quando há sondagens, a conversa é sempre a mesma:
Quem fica à frente mostra-se muito satisfeito, e quem fica atrás faz o que pode para as desvalorizar. Neste último caso, a nuance só aparece na forma de manifestar este aborrecimento:
Em tempos, Santana Lopes e Alberto João Jardim chegaram ao ridículo de ameaçar processar as empresas do ramo se elas se enganassem - e foi muito bem-feito, pois acertaram todas no essencial.
Quanto à mais recente (a da Eurosondagem), esse padrão repete-se, mas faz pena ver Manuel Alegre a entrar nesse jogo por ter, nela, cerca de um ponto percentual a menos do que Mário Soares.
No entanto, das quatro perguntas feitas, constava a mais evidente («Se as eleições fossem hoje em quem votaria?») e outras três que pressupunham desistências na área da esquerda:
E se Jerónimo de Sousa desistisse?
E se Louçã fizesse o mesmo?
E se a esses dois se juntasse Manuel Alegre?
Curiosamente, em nenhum dos casos ficamos a saber o que sucederia se Mário Soares desistisse.
Com certeza que não foi o que sucedeu neste caso, mas ele recorda-nos que a informação, para ser tendenciosa, não precisa de mentir nem de deturpar absolutamente nada: basta-lhe omitir...
Publicado no "Diário Digital" em 14 Novembro 2005
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