Cavaco e a fábula dos três príncipes
A actual corrida à Presidência da República faz-me lembrar um velho conto indiano que em tempos li. À parte um ou outro pormenor em que a memória me possa atraiçoar, a história era assim:
Em tempos que já lá vão, num pequeno reino perdido no interior da Ásia, havia três príncipes gémeos, um dos quais deveria ascender ao trono quando o pai morresse.
Não podendo reinar os três, era preciso saber o mais cedo possível qual deles poderia vir a ser o melhor rei, pois havia um longo caminho de preparação que era necessário percorrer.
Assim, quando chegaram à idade em que já sabiam manejar armas, caçar e andar a cavalo, o rei mandou que fossem sujeitos a um conjunto de provas de inteligência, perícia e coragem - e, evidentemente, aquele que obtivesse melhores resultados ficaria sendo o primeiro na linha da real sucessão.
Começaram então com uma prova de tiro com arco, e tiraram à sorte a ordem pela qual haviam de lançar as setas.
Ora aconteceu que o primeiro viu a sua flecha desviar-se devido ao forte vento que se fazia sentir; e o mesmo aconteceu ao segundo.
O último, perspicaz, teve em conta o que sucedera aos irmãos e, quando desferiu o seu tiro, acertou em cheio no alvo.
E isso voltou a acontecer em todas as provas que - para bem da história e proveito dos leitores... - nunca eram simultâneas:
O terceiro príncipe, sempre atento ao que faziam os outros antes dele, conseguiu, sem grandes dificuldades, ser o melhor em todas as provas.
A moral da história - «os últimos são os primeiros» -, parece ser uma conclusão para a qual não é necessário ler velhos contos orientais.
Ou será?!
É que, goste-se ou não do facto, é exactamente isso o que está a fazer Cavaco Silva, por contraste com os erros-de-palmatória que os seus concorrentes parece fazerem questão de lhe oferecer de bandeja!
Estes últimos, como é de norma em casos semelhantes, são absolutamente incapazes de «se verem de fora», e insistirão até ao último minuto nos mesmos erros, frases e atitudes.
Depois, na noite das eleições e nos tempos seguintes, lá os ouviremos a deitar as culpas para as empresas de sondagens ou para a Comunicação Social - mas nunca para si próprios nem para os que os rodeiam...
Publicado no "Diário Digital" em 23 Outubro 2005
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