Colaborações no Diário Digital


Peculiaridades lusitanas

I - LI RECENTEMENTE, em jornais portugueses, que o vencimento anual de Vítor Constâncio é de 272.628 euros (14 meses/ano), enquanto o de Alan Greenspan, presidente da Reserva Federal dos EUA, é de $180,100, cerca de 150 mil euros (valor que é público e está disponível no site da instituição www.federalreserve.gov/generalinfo/faq/faqbog.htm#3).

Pretendi, como outras pessoas, obter confirmação do primeiro. Claro que o esclarecimento «Governo não revela salário de Constâncio» já diz tudo, mas confronta-nos com o facto bizarro de um patrão (nós todos) não poder saber ao certo o ordenado de um seu empregado (que é o que Vítor Constâncio é - quer queira, quer não queira)!

Mas eu até aceito que ele seja mais bem pago do que os seus congéneres, na medida em que tem de fazer MUITO mais do que eles:

Tem de fazer comédia, como se viu com a rábula dos 6,83% (que, embora tenha sido um plágio rasca, foi superiormente representada), e tem ainda de ter sempre à mão uma grande reserva de «lata» - para, de vez em quando, vir a terreiro exigir sacrifícios... precisamente a quem lhe paga o vencimento e as mordomias.

E - sejamos justos - isso não se faz de borla!

II - NOS ÚLTIMOS DIAS regressaram, e em força, as imagens dos fogos, e nelas continua a saltar à vista que as florestas chegam até ao asfalto das estradas e às portas das casas!

Ora, se a lei existente não pode, de todo, ser cumprida (e acredito que seja de execução impossível), não será melhor revogá-la acabando-se, de uma vez por todas, com a fantochada que é a sua existência?

Ou será que o Governo é capaz de tirar a ilação lógica e anunciar que «a partir de agora, os bombeiros vão deixar de dar prioridade à protecção das casas que não respeitem a distância de segurança, e não haverá um cêntimo do Estado para apoiar quem, estando nessas condições, venha a ter os seus bens destruídos pelo fogo»?

Claro que não sucederá uma coisa nem outra.

Por isso, preparemo-nos para continuar a ouvir falar dos estudos «que estão em curso» ou «que se hão-de fazer», conversa-fiada para alternar com as recorrentes lamúrias de António Costa, queixando-se (como já o ouvimos por várias vezes) que «a lei existe mas não é cumprida» - como se essa pecha nacional não fosse nada com ele, precisamente o Ministro da Administração Interna!

III - NAS ÚLTIMAS ELEIÇÕES, muito se falou - e ainda bem! - do voto electrónico; mas, agora, que tanta falta ele fazia, o assunto parece morto; ou talvez não, se tivermos em conta que se trata de um processo trabalhoso e demorado:

Numa primeira fase, todo o trabalho desenvolvido durante vários anos tem de ir para o lixo.

Depois, será preciso dar tempo a que o Governo nomeie um grupo-de-estudo para criar uma comissão-de-especialistas de onde sairá um grupo-de-sábios a quem serão dados quatro anos para propor um novo sistema.

Só os cínicos é que comentam que inventar a roda pode sair caro...

IV - NOTAS FINAIS

- Ângelo Correia informou-nos, na TV, que estava muito satisfeito com a vitória do seu partido na CIDADE de Sintra.

Alguém é capaz de lhe dizer que SINTRA NÃO É UMA CIDADE mas sim uma Vila - e com muita honra?

- Mário Soares, ao violar, mais uma vez, a lei eleitoral, continua a pregar pregos no caixão da sua credibilidade. É ele que se propõe ser o garante máximo da legalidade?

- Na noite eleitoral, os computadores do STAPE (Ministério da Justiça) bloquearam quando mais eram necessários. Será, como já é hábito, o Estado a dar-se mal com a «Sociedade da Informação», ou mais um dos famigerados atrasos da Justiça-que-temos?

- Nas entrevistas feitas após as «projecções» (enquanto o problema atrás referido não era solucionado), muitos políticos não resistiram à tentação das «ilações nacionais». No entanto, foi graças a essas pessoas que eu prestei hoje um grande serviço à economia do país, não gastando uma gota de tinta da esferográfica que me disponibilizaram na Assembleia de Voto.


Publicado no "Diário Digital" em 10 Outubro 2005

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