Importam-se que eu vote?
Já não é a primeira vez que tal sucede:
Depois de eu ter dado o meu contributo para uma determinada votação, aparecem uns cavalheiros a vangloriar-se de que, com o meu voto, tinham ganho uma outra eleição completamente diferente daquela em que eu havia participado!
Eu explico melhor:
Faz agora quatro anos que votei para as autárquicas.
Ora, quando eu julgava que tinha ajudado a escolher as pessoas mais indicadas para tratarem de coisas como o trânsito caótico ou os excrementos de cão na cidade onde resido, eis que Guterres me informa que não foi nada disso! Sem o meu conhecimento (e menos ainda com o meu acordo), alguém decidiu que eu, afinal, tinha votado para correr com o governo dele... e o homem sumiu!
Felizmente, tempos depois, para as eleições europeias, os principais partidos tiveram a gentileza de, atempadamente, nos esclarecer que, afinal, não iríamos votar para elas:
O PS proclamou que a votação seria um «cartão amarelo» ao governo; o PCP também, só mudando a cor para vermelho; e, por fim, o próprio Durão Barroso (concordando com essa leitura quando devia ser o primeiro a contestá-la!), disse que «tinha entendido o sinal do povo», pelo que, logo que pôde, fez as malas e... «Baza, que é bué da tarde!».
E é por tudo isso que, para as eleições autárquicas de Outubro, já estou pelos cabelos só de ouvir a mesma conversa: a rapaziada dos partidos propõe-se pegar no meu (eventual...) voto, desviá-lo, e brandi-lo como se ele fosse dado para apoiar ou rejeitar o governo de Sócrates - um pouco como se eu doasse dinheiro para as vítimas do Katrina e ele fosse direitinho para as campanhas do senhor Major ou de Avelino Ferreira Torres!
Perante tal embuste (que se repete eleição-após-eleição, e em que todos os partidos colaboram entusiástica e alegremente), eu só gostava que o José Mário Branco se candidatasse. É que toda essa gente que por aí anda me dá uma grande vontade de votar em BRANCO...
NOTA: Já depois de alinhavada esta crónica pude assistir, com um misto de espanto e náusea, ao frente-a-frente Carmona-Carrilho. A certa altura, eu já nem me preocupava muito em ouvir o que eles diziam! - só pensava na minha triste sina de munícipe e de contribuinte que, ainda por cima, VAI TER DE PAGAR os ordenados àquele par de patuscos...
Publicado no "Diário Digital" em 19 Setembro 2005
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