Colaborações no Diário Digital


Quando certas pessoas citam Pessoa

Como não é segredo para ninguém que o país atravessa uma grave crise económica e financeira, é natural que Cavaco Silva, como pessoa entendida nesses assuntos, apareça aos olhos de muitos eleitores com vantagem sobre Mário Soares - pelo menos nesses aspectos.

Consciente dessa realidade, este reagiu como muitas vezes fazem os que se sentem acossados por serem ignorantes acerca de alguma coisa: menosprezou o saber de quem sabe; mas, ao mesmo tempo, para tentar polir as rebarbas que uma tal reacção inevitavelmente provoca, puxou da erudição e citou Fernando Pessoa, quando este refere «Jesus Cristo / Que não sabia nada de finanças».

Ora, quando há citações que não agradam, os citados costumam alegar que as frases foram retiradas do contexto - e palpita-me que seria esse o caso se o poeta fosse vivo.

Bem... a menos que Mário Soares, que já tem fama de se estar nas tintas para os dossiês e de encarar o exercício do poder como algo de lúdico, subscreva o poema todo:

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca.


Publicado no "Diário Digital" em 12 Setembro 2005

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