Colaborações no Diário Digital


Os labirintos

1 - Confrontado com o escândalo do mensalão, o povo brasileiro só dá a Lula da Silva duas possibilidades:

«Ou ele sabia (e estava feito com os corruptos), ou não sabia (e é incompetente, pois não controla o que o seu governo faz)».

No fundo, Lula viu-se encerrado no mesmo labirinto em que Sócrates se meteu por causa do «défice excessivo»:

«Ou ele sabia (e mentiu aos portugueses prometendo que não aumentava os impostos), ou não sabia (e foi incompetente, pois tinha a obrigação de saber)».

No nosso caso, o que tem graça (?) é que muitos comentadores de Economia dizem que Sócrates tem tomado medidas acertadas - como quem diz, com ar cúmplice, que «mentiu por uma boa causa», deixando, por vezes, subjacente a ideia de que «mentir é uma coisa que, num político, não é grave».

Mas, estranhamente, Sócrates preferiu a segunda hipótese ao garantir que «não sabia...».

E agora aí temos Freitas do Amaral que aparece a dizer, com a clareza possível:

«Se fosse eu, não tinha mentido aos portugueses...».

Embora possa ser sonso, o homem não é parvo: sabe muito bem que a maioria das pessoas acredita mais na versão do «Sócrates mentiroso» do que na versão do «Sócrates incompetente» e que, tão cedo, não lho vai perdoar.

Daí, à tentação de retirar dividendos pessoais, vai um pequeno passo - que, evidentemente, Freitas já deu.

2 - SE um dos motivos para o cansaço de Campos e Cunha foi o que eu imagino, posso dizer que o compreendo muito bem , pois a mim já me sucedeu exactamente o mesmo - como talvez um dia aqui conte.

De qualquer forma, o que se passou com ele aconteceu também com outros governantes e com todos os deputados do PS que entraram de novo:

Trata-se de pessoas adultas, que tinham a sua vida familiar e profissional, e a quem, a certa altura, o partido convidou para funções políticas oferecendo-lhes, em troca (como em qualquer emprego normal), determinadas condições bem definidas: ordenado, horário, férias, reformas, regalias, etc.

Mas eis que, pouco depois de terem aceite o contrato proposto e entrado em funções, o «empresário» lhes diz que afinal são uns privilegiados, que estão a ganhar demais, que têm de cortar 2/3 das reformas ou dos ordenados (eles que escolham!)... e pior: serão eles próprios a legislar sobre isso - perante o gáudio do «povão»!

Como exemplo de falta de honestidade no relacionamento entre «patrão e empregado» (para já não dizer entre pessoas crescidas) era impossível encontrar melhor - embora, como atrás referi, me tenha sucedido exactamente o mesmo ao serviço de uma das maiores empresas portuguesas.

Se esse foi um dos motivos de irritação e de desgaste para Campos e Cunha, o homem tem TODO o meu apoio, como qualquer pessoa-de-bem que é vítima de um conto-do-vigário.

De qualquer forma, e mesmo que não tenha sido esse o motivo que o fez mandar bugiar o patrão, aqui fica uma palavra de apreço, pois deixa uma imagem de pessoa rigorosa, educada, esforçada e - quanto mais não seja, infelizmente, por contraste... - politicamente honesta:

Campos e Cunha (e isso já se sabia desde a rábula dos impostos) teria necessariamente de se dar mal com os que têm com a verdade uma relação pouco amistosa...


Publicado no "Diário Digital" em 21 Julho 2005

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