Colaborações no Diário Digital


É de mestra!

Confrontado com as primeiras propostas governamentais acerca do «Choque Tecnológico», Belmiro de Azevedo comentou que o Estado devia começar por aplicá-lo na Função Pública.

De facto, e tendo em conta o descalabro (que, inúmeras vezes, se confunde com o ridículo) da informática na Justiça, nas Finanças, na Educação, na Segurança Social, etc., poderá pensar-se que tem toda a razão.Mas veja-se como, afinal, pode haver honrosas excepções:

Quando um dia me pediram para escrever alguns textos, fiquei muito honrado, mas o convite apanhou-me numa altura em que estava pouco ou nada inspirado. E, depois, quando me veio a inspiração, estava tanto calor que não me apetecia estar em casa.

E foi assim que peguei no portátil, procurei um banco numa boa sombra de um jardim simpático e, tentando abstrair-me do chilreio dos passarinhos, comecei a trabalhar.

Ora, a certa altura, apercebi-me de que uma velhinha, tão pequenina quanto curiosa, se sentava ao meu lado e espreitava, procurando bisbilhotar o que eu estava a escrever. O facto de o monitor ser de matriz activa permitia que ela, mesmo de um ângulo desfavorável, pudesse ver tudo à vontade.

Não quis ser malcriado, não comentei nem resmunguei, e fiz os possíveis por me concentrar na escrita. Mas não consegui, e o certo é que, devido ao nervoso miudinho que eu não conseguia controlar, começaram a aparecer mais erros do que o habitual. Felizmente, o corrector ortográfico, sempre atento, ia corrigindo tudo, pelo que a grafia errada apenas se mantinha visível no monitor durante uma fracção de segundo.

Mas, mesmo assim, o diabo da velhinha era terrivelmente perspicaz, e comecei a ver que, a breve trecho, ela produzia surdas interjeições de desagrado quando eu me enganava!

Era apenas um «Tsch...! Tsch...!», mas sumamente irritante!

A certa altura, não aguentando mais, decidi-me a fechar o computador e sair dali, não escondendo o meu enfado.

E foi nessa altura, quando me resolvi a deitar-lhe um olhar desagradável, que se deu o incrível:

Descobri que a senhora era, nem mais nem menos, do que a D. Judite, a minha antiga professora de escola primária, e que me reconhecera!

- Seu maroto... - comentou ela, sorrindo - Estás muito crescido!

Vieram-me as lágrimas aos olhos e fiquei sem palavras!

- Tenho estado a ver-te a escrever... Sabes? Merecias 20!

«Coitada...» - pensei eu - «Mal sabes tu que era o corrector automático do computador a trabalhar!»

Mas uma surpresa maior veio logo a seguir:

- Seu maroto... Julgas então que eu não conheço o Word e essa função do auto-correct?

Fiquei banzado. E, ainda eu não tinha fechado a boca, quando ela concluiu, enquanto me dava dois beijinhos de despedida:

- Merecias 20... reguadas!


Publicado no "Diário Digital" de 28 Abril 2005

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