«Até tu, Bertrand?!»
Santana Lopes reconheceu, recentemente, que os seus quatro meses de governação foram pontuados por algumas peripécias menos felizes - para em seguida se queixar de que, quando contava corrigir o rumo, foi despedido.
Ou seja: se lhe tivessem dado tempo, teria provado que era um bom governante.
Curiosamente, esse raciocínio remete-nos para Bertrand Russell que, no seu livro «Porque não sou Cristão», analisa o chamado Argumento da Reparação da Injustiça, segundo o qual este mundo é tão injusto que tem de haver uma vida futura capaz de estabelecer o equilíbrio da existência cá na Terra.
A isso, contra-argumenta o grande filósofo:
«Suponhamos que recebeis um cabaz de laranjas e, ao abri-lo, descobris que as de cima estão apodrecidas. Por certo que não direis: "debaixo devem estar sãs para que o equilíbrio seja restabelecido", mas sim: "é provável que tudo esteja estragado"».
Ora veja-se como Santana Lopes e o PPD-PSD têm razão quando se queixam do mundo:
É que Russell não falou de uma fruta qualquer, mas foi logo escolher, para o seu eloquente exemplo...
Publicado no "Diário Digital" em 21 Fevereiro 2005 e no "DN" no dia 18
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