Colaborações no Diário Digital


Falsa iliteracia

Há dias, Alberto João Jardim, referindo-se ao famoso artigo de Cavaco Silva no «Expresso», atribuiu-lhe a pretensão de ser ele - ele, Cavaco, entenda-se... - a indicar quem são os políticos competentes e os incompetentes. Ora isso não é verdade, como muito bem sabe quem leu o texto com alguma atenção, mesmo que pouca.

Haverá grande diferença entre os que nem sequer lêem jornais (como Cavaco Silva e Durão Barroso) e os que, simplesmente, os não percebem - como parece ser o caso presente? A OCDE, pelo menos, não faz tão subtis distinções: mete tudo no mesmo saco e coloca-nos na cauda de 41 países no que toca à leitura e compreensão de textos!

Mas, vendo bem, o caso de catilinárias como as de Jardim é um falso-problema, pois, neste género de discursos, ninguém se preocupa muito se o que se diz está correcto ou não: o que conta é o tom inflamado da voz (aliás, uma ou duas oitavas acima do normal) e o dedo em riste - a abanar para cima e para baixo, ameaçador como uma moca, marcando o ritmo do palavreado.

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PS: A fuga esquizofrénica à realidade (por parte do Governo em geral e do PSD em particular) faz lembrar - por contraste - a atitude dos reis que, nas histórias populares, se disfarçam e vão para o meio das suas gentes saber o que elas pensam e anseiam - o que mostra como a sabedoria do povo é certeira, pois é evidente que uma terapia dessas seria remédio-santo para a maioria dos governantes...


Publicado no "Diário Digital" em 27 Dezembro 2004

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