Colaborações no Diário Digital


Os problemas e os problemáticos

Há anos, com humor certeiro, uma consultora internacional sentenciou, acerca dos gestores portugueses, que «são muito bons a resolver os problemas que eles próprios criam».

A frase não anda muito longe da realidade - pelo menos por aquilo que conheço; e, a propósito disso, não resisto a contar uma peripécia em que me vi envolvido:

Uma empresa portuguesa muito conhecida andava à procura de um engenheiro para gerir um grande projecto.

Ora, como eu conhecia alguns que estavam disponíveis, armei-me em gestor de Recursos Humanos e, depois de conversar com todos, fiz uma selecção, acabando por recomendar os que me pareciam os mais apropriados. Depois, ao dizer maravilhas deles, usei precisamente como argumento o facto de achar que tinham «imenso jeito para resolver problemas».

O meu interlocutor - um administrador experiente e lúcido, como deviam ser todos... - sorriu, agradeceu-me, mas comentou:

- Não me interessam engenheiros que RESOLVAM problemas. Desses, há por aí aos pontapés. Um bom gestor - que é o que eu procuro - é o que pensa nos problemas ANTES de eles aparecerem, evitando que CHEGUEM A NASCER.

E, voltando a agradecer o trabalho que eu tivera, intercalou, na despedida, palavras que nunca mais esquecerei:

- Sabe? É que GERIR É PREVER...

*

Se pensarmos que os governantes são «gestores da coisa pública», tudo o que acima se diz se lhes aplica - e, há que reconhecê-lo, é muito pouco abonatório para quase todos os que conhecemos.

Exemplo paradigmático é o governo cessante - veja-se como, praticamente, os seus membros não fizeram mais nada do que (TENTAR) resolver os sarilhos em que se iam metendo...

PS: António Vitorino declarou recentemente a Maria João Avillez, na SIC-N: «Não penso nos problemas antes de eles aparecerem!».

Pois... - como dizia a prima do Solnado.


Publicado no "Diário Digital" em 9 Dezembro 2004

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