Ficção e realidade
I
No fabuloso livro «O Buscão», de Francisco Quevedo (1580-1645), o pai da personagem principal vai ser enforcado sendo o verdugo, por sinal, o tio.
Ao subir ao patíbulo, o condenado repara que há um degrau em mau estado e, indignado, chama a atenção do carrasco para esse facto:
- Ainda alguém se vai aleijar aqui!
II
Há anos, um candidato a suicida (que pretendia atirar-se do viaduto Duarte Pacheco) foi salvo, in-extremis por um senhor que costumava andar por ali «e já os conhecia».
Depois de, com grande esforço, puxar para cima o desesperado, o benemérito recebeu do outro o seguinte agradecimento:
- Apre, que me magoou!
III
Um estudo acerca de saúde pública refere que cerca de metade dos actuais fumadores vão morrer por doenças relacionadas com o seu vício.
Há um grande movimento contra o facto de algumas marcas de cigarros usarem tabaco tratado com pesticidas perigosos para a saúde.
IV
A propósito de Quevedo:
No seu leito de morte, houve alguém que lhe foi pedir que deixasse dinheiro para pagar aos músicos que iriam tocar no seu enterro.
A sua resposta foi «A música, pague-a quem a ouvir!» - o princípio do utilizador-pagador, portanto...
Publicado no "Diário Digital" em 24 Novembro 2004
|
|
|
|
|