Colaborações no Diário Digital


«Presidente não mente!»

JULGO que foi a «Sky News» que me explicou, com palavras simples, como foi enjorcada a mistificação das armas de destruição maciça iraquianas:

Primeiro, pessoas tão credíveis quanto o Sr. Chalabi disseram: «O Saddam É CAPAZ de as ter»; depois, os Serviços Secretos alteraram a frase para: «É MUITO CAPAZ de as ter»; por fim, os senhores-da-guerra deram o retoque que faltava: «DE CERTEZA que as tem».

A rematar a farsa, ainda actuou uma trupe de pândegos que garantiram, pela sua saudinha, que tinham visto as provas. Com essa e outras mentiras (sendo a mais eficaz a de que Saddam estava por trás do 11 de Setembro), só podia seguir-se o «Vamos a eles!».

Um ano, dezenas-de-milhar de mortos e vários inquéritos depois, Bush reconheceu, perante o mundo, que usara falsas alegações; no entanto, uma sondagem indicou que 70% dos norte-americanos continuaram a acreditar nelas e, segundo um correspondente português nos EUA, nas vésperas das eleições esses «crentes» ainda eram 40%!

O presidente Lincoln sentenciou um dia: «Podeis enganar toda a gente durante um certo tempo; podeis mesmo enganar algumas pessoas todo o tempo; mas não podereis enganar toda a gente durante todo o tempo».

Ora tudo indica que um seu sucessor e respectivos amigos tenham resolvido arriscar uma variante: «Não podereis enganar toda a gente durante todo o tempo, mas podeis enganar algumas pessoas todo o tempo e podeis mesmo enganar toda a gente durante um certo tempo»:

Como tinham a jeito «algumas pessoas» e dispunham de «um certo tempo» (e como as velhas mentiras, tendo entretanto ganho vida própria, já andavam pelo seu próprio pé), não foi preciso fazer muito mais do que esperar - eventualmente com um sorriso cínico nos lábios...


Publicado no "Diário Digital" em 11 Novembro 2004

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