O sapo, o petróleo e a vizinha
HÁ UMA HISTÓRIA correspondente a uma experiência que não tenciono realizar mas cuja descrição aqui fica dados os seus contornos de fábula:
Diz-se que, se se meter um sapo num tacho com água quente, ele salta - faz ele muito bem, e até aqui nada de novo; no entanto, diz-se que, se a água começar por estar fria e for aquecida muito lentamente, o bicho se vai adaptando até acabar por morrer - sem sequer tentar fugir.
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A moral subjacente a esta história é a mesma da frase que diz que «O Homem só aprende por catástrofes», o que, como se sabe (e o caso dos fogos florestais é paradigmático), raramente se aplica em Portugal.
E exemplos não faltam.
Actualmente, o Ocidente industrializado é confrontado com a subida do preço do petróleo:
40 dólares por barril há uns tempos... 41 no dia seguinte... 42 no outro... 46 ontem mesmo... já se fala da possibilidade de 60 e até 100... e as pessoas vão-se adaptando ao mesmo ritmo com que protestam.
A propósito desse problema, Bagão Félix, um dia destes, informou-nos:
«Importamos, sob a forma de produtos petrolíferos, 80% da energia que consumimos...» - até aqui, limitou-se a dizer uma verdade bem conhecida.
O pior foi o que proclamou a seguir:
«... ora, como não produzimos petróleo, não há nada a fazer senão aumentar os preços...».
Pode estar cheio de razão no curto prazo, mas toda a gente sabe que o problema da energia de origem fóssil não é de hoje nem de ontem, e é algo mais do que certo - não só pela sua escassez e preço, como pelos problemas ambientais que o acompanham.
Por isso, que boa oportunidade aí temos (ou tínhamos...) para sensibilizar os portugueses para a economia de energia, para a dinamização dos transpores públicos (ou partilhados), para os incentivos à produção e uso das energias renováveis e até - no mínimo - para uma maior racionalização do uso dos combustíveis petrolíferos!
Diz-se, em meios restritos, que o governo está atento ao assunto, mas para o «grande público» pouco ou nada é dito - e é pena.
Sabe-se também que a aposta nacional nas energias renováveis não vai acompanhar o ritmo exigido pelo Protocolo de Quioto - e em breve Portugal vai ter de comprar «quotas de CO2» a países menos poluidores.
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Resumindo: tal como dantes as comadres pediam raminhos-de-salsa umas às outras, um dia destes vamos ver Portugal a pedir a Espanha:
«Ó vizinha, têm aí umas toneladas de CO2 que me dispense?»
Publicado no "Diário Digital" em 18 Agosto 2004
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