Colaborações no Diário Digital


Segurança especializada

Sempre me fez confusão que um Polícia Municipal veja uma manobra perigosa e não faça nada ou que um Polícia de Trânsito passe por um vendedor ambulante ilegal e não o interpele.

Suponho que um homem da Judiciária não fará uma coisa nem outra, assim como um Polícia do Metro ou um GNR não incomodará um dono dum cão que esteja a aliviar-se na via pública (refiro-me ao cão, mas se me referisse ao dono a frase mantinha-se válida).

*

Tal como todos os que têm carro, eu também passo uns maus bocados com a rapaziada que "arruma automóveis". Por isso, fiquei satisfeito quando, já há bastante tempo, veio uma legislação que lhes proibia a actividade.

Só que, em Portugal, há uma grande diferença entre proibir e impedir: Quem faz as leis ou as «posturas» (o nome até é divertido, pois faz lembrar a tal cena do cão) fica satisfeito, mas passar à prática é com outros... e em geral fica tudo na mesma (*).

São as tais «leis da treta», como há dias alguém lhes chamou.

*

Ora, quando apareceu essa profissão de «técnicos especializados em estacionamento urbano» fiquei com imensa curiosidade de saber qual iria ser a polícia que a iria apadrinhar...

E, um belo dia, estava eu ao pé da pastelaria «Mexicana», em Lisboa, quando pensei:

«Hoje é que vou saber, pois há por aqui de tudo: vendedores ambulantes, carros em cima do passeio, arrumadores com fartura, cãezinhos em plena actividade intestinal... carteiristas também deve haver por aqui alguns...»

E foi assim que comecei a ver as sucessivas autoridades a repartirem as suas actividades conforme as respectivas especialidades:

O Polícia Municipal a perseguir os ciganos das camisolas;
o Polícia de Trânsito a multar os carros mal estacionados;
um indivíduo mal-disposto, decerto da Judiciária, a levar um suspeito pelos colarinhos;
enquanto o Malaquias continuava, nas calmas, a arranjar lugares para os carros da rapaziada que ia chegando ali à zona...

De repente aparece, nem se sabe bem de onde, um carro da PSP:
Travagem brusca… chiar de pneus… e eis que um dos guardas sai do carro de rompante, agarra o Malaquias por um braço e lhe diz qualquer coisa que mais ninguém consegue ouvir.

De facto, o que valeu ao pessoal do carro-patrulha foi mesmo o Malaquias, senão onde é que tinham arranjado um lugarzinho para estacionar e ir ao cafezinho?


(*) Embora no essencial continue válido, este texto foi escrito há algum tempo. Entretanto, os Presidentes da Câmara do Porto e de Lisboa resolveram encarar este assunto da forma mais simples: legalizando o que não conseguiram impedir!


Publicado no "Diário Digital" em 19 Março 2004

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