O cavalo do rei
A história que seguidamente se narra já é muito velha e existe, até, em várias versões - sendo uma delas a do homem que queria ensinar um burro a ler.
No entanto, tendo em conta o actual momento político (e porque decerto haverá quem não a conheça), não resisti à tentação de aqui a contar.
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ERA UMA VEZ um rei que tinha um cavalo de que muito gostava.
- Só lhe falta falar! - costumava ele dizer, perante o sorriso dos cortesãos que fingiam sempre concordar consigo.
Um dia, sabendo disso, um condenado às galés fez chegar aos reais ouvidos que era capaz de ensinar o animal a cantar, pelo que não tardou muito até ser chamado à corte.
Uma vez na presença do monarca, ajoelhou-se e, sem que a voz lhe tremesse, declarou, confiante:
- Saiba Vossa Majestade que, se me der dois anos, o seu cavalo ficará capaz de cantar ópera.
Um «Ah!» de espanto percorreu toda a sala-do-trono. Sua Alteza, embora não acreditasse nas palavras do homem, achou-lhe graça e, sentindo-se magnânimo nesse dia, proclamou:
- Seja! Mas fica sabendo que estarei atento e vigilante; se dentro de dois anos o animal não tiver aprendido nada, tens novamente as galés à tua espera!
E foi assim que o condenado se viu livre dos remos, dos ferros e da comida intragável e iniciou uma rica vida na estrebaria real.
Ora, costumava assistir às «aulas de canto» um jovem escudeiro que estava sempre a perguntar se era mesmo possível que o animal viesse a emitir algo mais do que os relinchos do costume.
Então, um dia, olhando em volta e certificando-se de que ninguém o escutava, o «professor» confidenciou-lhe, sorrindo e piscando um olho:
- Meu rapaz, em dois anos pode acontecer muita coisa: posso morrer eu, pode morrer o rei, pode morrer o cavalo...
Nessa altura, o rapaz, interrompendo-o, tirou-lhe as palavras da boca:
- ... e, com a ajuda de Nossa Senhora, até pode ser que aprenda a cantar!
Publicado no "Diário Digital" em 4 Agosto 2004
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