Colaborações no Diário Digital


Novas rábulas portuguesas

I - Palpitações

Enquanto aguardamos para ver o que sucede relativamente às promessas feitas pelos novos governantes, já fomos esclarecidos que, nestas coisas, há que distinguir entre «ideias» e «palpites», e entre «intenções» e «promessas».

O problema é que nos servem tudo em embrulhos iguais e, embora já estejamos habituados a que haja alguma diferença entre o que nos dizem e o que vem depois, não temos ainda o espírito suficientemente apurado para detectar essas subtilezas quando vêm do novo governo.

Mas acho que vamos rapidamente apanhar-lhe o jeito - pelo menos, é o meu «palpite»...

II - Os Velhos Marinheiros

Sacadura Cabral foi, além de aviador, oficial de Marinha - facto que nunca esquecerei, até porque também eu o fui, tendo mesmo andado embarcado na fragata com o seu nome.

Parece que o nosso Ministro da Defesa (Paulo Sacadura Cabral Portas) é familiar do acima referido, facto que aqui é mencionado apenas por ele ter dito que um dos atributos que Teresa Caeiro tinha para trabalhar com ele era ser filha e neta de militares (aliás, almirantes) - e isso talvez ajude a explicar como é que ele pode ter chegado ao lugar que ocupa sem nunca ter feito a tropa.

Pelos vistos, e à semelhança das monarquias, a proximidade familiar passou a ser considerada como uma garantia de competência para funções governativas - mas, se pensarmos que Miguel e Paulo Portas são irmãos, ficaremos confusos.

O certo é que a senhora lá acabou, à última hora, por ir parar às Artes e Espectáculos, lugar afinal muito mais apropriado - tendo em conta a comédia em que a obrigaram a ser vedeta.

Não me quero meter na sua vida mas eu, se fosse a ela (e pela amostra do que lhe fizeram), punha-me «à defesa» - até porque este Governo ameaça vir a ser um lugar de alto-ris(c)o!

PS: De súbito, dei comigo a relembrar «Os Velhos Marinheiros», onde Jorge Amado nos dá a conhecer «A completa verdade sobre as discutidas aventuras do comandante Vasco Moscoso de Aragão, capitão de longo curso»: apesar de super-incompetente, «seu» Aragãozinho dizia-se um óptimo comandante de navios... até ao dia em que, por força das circunstâncias, foi posto a comandar um.

Que partidas o cérebro nos prega quando abre o baú da memória e desata a fazer associações de ideias!

III- O paradoxo de Epiménides

NO SEGUIMENTO da habitual intervenção do Professor Marcelo Rebelo de Sousa, ficámos a saber que há governantes irritados com os comentários publicados na Comunicação Social - nomeadamente às anedóticas peripécias que todos sabemos; e que é prática comum, entre políticos no poder, contactarem as direcções dos «media» no sentido de «calar este ou aquele jornalista ou comentador» - no que são, por vezes, bem sucedidos!

Cavaco Silva defendia-se dizendo que 95% do que os jornais escreviam era mentira. Ora, dado que isso foi publicado em todos os jornais, Cavaco colocou-nos a 5% de distância do milenar paradoxo:

«Epiménides diz que todos os cretenses são mentirosos. Epimenides é cretense, logo, o que ele diz é uma mentira...», etc...


Publicado no "Diário Digital" em 28 Julho 2004

Página Anterior
Topo da Página
Página Principal
Página Seguinte