Colaborações no Diário Digital


As razões e os pretextos

Não era preciso dizê-lo, mas José Hermano Saraiva recordou-o recentemente:

Em todas as guerras há motivos e pretextos pois, quando um governante decide invadir um país, nunca invoca as verdadeiras razões por que o faz.

Relacionado com isso, há um ditado famoso, que reza assim:

«Nunca se mente tanto como ANTES de umas eleições, DURANTE uma guerra e DEPOIS de uma caçada».

Mas as coisas têm evoluído, e agora mente-se em todos os momentos - ANTES, DURANTE e DEPOIS -, a propósito de tudo, e com o ar mais natural do mundo...

Veja-se o que tem acontecido em relação à guerra no Iraque:

A pouco e pouco, como era inevitável, a verdade tem vindo ao de cima, quer no que toca às armas de destruição maciça, quer quanto às pretensas relações de Saddam com a Al Qaeda, quer quanto ao facto de o regime ser «uma ameaça iminente para o Ocidente», quer ainda quanto às suas responsabilidades no 11-de-Setembro.

Só que o desabar das histórias-da-carochinha tem vindo a suceder a um ritmo mais rápido do que seria conveniente para certos calendários eleitorais, e está a causar sérios problemas em todos os que, mais ou menos (?) conscientemente, as usaram em seu proveito de curto prazo.

Dizem agora que, se não foi por esses motivos, foi por outros quaisquer; e aí temos a velha fábula do lobo e do cordeiro - mas invertida, pois a famosa frase «Se não foste tu, foi o teu pai» não fica bem na boca de Bush-filho dirigindo-se a Saddam, mas, quando muito, ao contrário!

Mas, a agravar a incómoda situação dos apoiantes e promotores da guerra, está o facto - talvez o mais importante de todos - que nos remete para a portuguesa expressão «fazer o mal e a caramunha»:

Alguns deles foram os que, ainda há bem poucos anos, forneceram as armas e apoio político para Saddam gasear curdos e chacinar iranianos!

Essa foi, naturalmente, uma embaraçosa questão colocada a Durão Barroso nas audições a que foi sujeito em Bruxelas, lembrando-lhe que ele pertencera a um desses prestimosos governos que auxiliaram o «carniceiro de Bagdade».

Não se sabe que resposta deu.

Felizmente para ele, ninguém se lembrou de lhe recordar que foi mesmo Portugal (quando o CDS estava no governo!) quem vendeu ao Iraque o urânio que os norte-americanos incluíram nos motivos invocados para a invasão, dado que o produto serve para - além de produzir electricidade - fabricar aquilo que se sabe...

Aliás, diga-se de passagem que o futuro julgamento de Saddam Hussein pode vir a ser uma grande barafunda:

Já se imaginou o que pode ser o corrupio de tanta gente a sentar-se, alternadamente, nas cadeiras da defesa e da acusação?


Publicado no "Diário Digital" em 21 Julho 2004

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