Colaborações no Diário Digital


A lógica difusa

Um belo dia, nos «anos 60», resolvi ir ao cinema ver um filme para «maiores de 18 anos» quando me faltava exactamente uma semana para ter essa idade. Tive pouca sorte: o porteiro pediu-me o BI... e não me deixou entrar.

Embora o facto possa parecer absurdo, há que reconhecer que, num caso como este, é necessário estabelecer uma regra e, sendo ela fácil de definir e de fazer respeitar, é natural que tal aconteça.

Mas já o mesmo não sucede com o seguinte exemplo:

Imagine-se uma empresa que comercializa produtos para «idosos» e que pretende automatizar a sua promoção. Ou seja: pretende inserir numa base de dados a data de nascimento das pessoas e contactá-las, para tentar vender-lhes o produto, quando elas chegarem a «idosas».

Ora, se a ideia nos dá vontade de rir, é porque, embora haja «idosos» (e cada vez mais!), a entrada nesse estado não acontece numa data certa, pois o envelhecimento é um processo lento e gradual.

No entanto, já há alguns anos que a engenharia se debruça sobre esse problema, o que fez surgir a chamada «fuzzy logic» (conhecida em Portugal como «lógica difusa») que, melhor ou pior (usando probabilidades), consegue gerir matematicamente esse género de situações.

*

Vem isto tudo a propósito (quem diria?!) da nomeação do novo Primeiro-Ministro!

Sucedeu o seguinte:

No início de 2003, encontrei o meu amigo Roberto e, já não sei porquê, começámos a falar da pretensão de Santana Lopes de chegar a Presidente da República.

Curiosamente, ele não se mostrava nada preocupado:

- Vês ali aquele matulão a andar de bicicleta? É o meu filho - e ficou à espera de um qualquer comentário meu.

- Está um homem! - disse eu, então, percebendo que era o que ele esperava ouvir.

- Pois é. Acabou agora de fazer 14 anos. Da última vez que o viste tinha 11 e não passava de um puto reguila.

Habituado ao facto de as conversas com o Roberto nunca serem muito lineares, percebi o que ele queria dizer:

Em três anos, Santana Lopes também poderia deixar de ser um «enfant térrible», poderia «crescer», e vir até a ser um bom Presidente. Sorriu, confirmou que era esse o seu raciocínio, e completou-o:

- Só que essas coisas são processos graduais, e daqui até Janeiro de 2006 não vai haver uma data exacta em que suceda a sua passagem de «garoto» a «crescido»... - e o Roberto desviou a conversa para o futebol.

Mas dei hoje comigo a pensar nisso e a matutar: estamos em Julho de 2004... Essa «tal data» já terá ocorrido?


Publicado no "Diário Digital" em 14 Julho 2004

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