O trapo dos trapalhões
Como toda a gente sabe, há palavras cuja primeira letra deve, obrigatoriamente, ser maiúscula.
É o caso dos nomes de países, de cidades, de pessoas, dos meses do ano, etc.
No entanto, já todos vimos exemplos em que essa regra não é respeitada e, no caso dos nomes de pessoas, não se trata d' «a excepção que confirma a regra» mas apenas de uma manifestação de snobismo (*).
Ora, em tempos que já lá vão - quando essa moda começou a aparecer - um cavalheiro do Porto lançou uma verdadeira cruzada contra ela, e não havia gazeta nem jornal para onde ele não escrevesse a expor, em inflamada prosa, o seu (correcto) ponto-de-vista.
Dir-se-á que «cada doido com a sua mania...», mas vem isto a propósito de uma coisa semelhante que se passa comigo. É que, se há coisa que «me tira do sério», é ver a bandeira nacional adulterada, transformada em símbolo publicitário ou hasteada «de pernas para o ar»!
O mais curioso é que a quase totalidade das que, a propósito do «Euro-2004», têm sido penduradas nas varandas e janelas, até o são correctamente - as vergonhosas excepções continuam a ser, e não poucas vezes, organismos públicos!
Já foram muito comentadas, também, as bandeiras em que os nossos símbolos aparecem alterados, e desde castelos substituídos por pagodes chineses até esferas armilares transformadas em novelos de lã, julgava já ter visto de tudo.
Mas não - faltavam duas, na minha colecção de abortos:
Uma (que vi num café de Lagos na semana passada e que ostentava o nome «Euro 2004» seguido de «TM», Marca Registada...), tinha os círculos que representam as 30 moedas transformados em cruzes! (**)
Outra, de que já vi vários exemplares, é mais interessante:
É enorme, e tem em cima, a amarelo, as palavras «UEFA EURO 2004»; e, em baixo, «PORTUGAL» - na mesma cor (***).
A curiosidade (já esquecendo que não parece muito correcto adicionar textos ao Símbolo Nacional...) consiste no facto de que, quem pendura essas bandeiras, ter de optar:
Ou as coloca correctamente - e o texto fica invertido; ou as põe por forma a que o mesmo seja legível - e a bandeira fica «de pernas para o ar».
Escusado será dizer-se qual é a posição que os adeptos escolhem...
Resumindo: Sinto, nisto tudo, uma certa ideia de «que-se-lixe, tanto-faz», e, mesmo com a melhor das intenções, essas pessoas tratam a Bandeira Nacional como um trapo.
Se é de «trapo» que vem o termo «trapalhão», porque não arranjar uma palavra para esses «patriotas»? «Trapiocas» estaria bem?
(*) Exclui-se, nestas considerações, o caso dos endereços de correio electrónico, em que são aceites ambas as versões!
(**) Terá sido confusão com a moeda chamada «cruzado»?
(***) Até por ser uma das cores da Bandeira, não se aplica aqui a famosa frase de João de Deus Pinheiro na última campanha eleitoral: «O amarelo é a cor dos cobardes!». Além do mais, é também uma das duas cores do CDS-PP...
Publicado no "Diário Digital" em 7 Julho 2004
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