Colaborações no Diário Digital


A nossa Escola-de-Virtudes

1 - Que melhor prenda podem dar aos «hooligans» (que vivem na obsessão e no gozo da violência) do que pelotões de soldados com capacetes, escudos, bastões, cavalos, cães e canhões (mesmo de água)?

Se bem que os GNR sejam só «aproximações» de soldados do exército (tão depressa lhes chamam «guardas», como «agentes», como «soldados»...), já devem dar bastante gozo, e o facto de boa parte deles ter estado no Iraque ainda deve tornar mais emocionante a «epopeia» de os combater!

No entanto, suponho que, na prática, essas forças-da-ordem funcionam mais como catalisadores do que como inibidores de distúrbios - pelo menos se o seu aparecimento for prematuro, o seu aparato ostensivo e exagerado, ou o seu comportamento desnecessariamente violento.

A minha experiência das manifestações estudantis dos «Anos 60» confirma-mo plenamente: mais berro, menos berro, estava tudo bem até aparecer a Polícia-de-Choque...

Mas o nosso MAI lá sabe dessas coisas melhor do que nós... e «MAI' nada!»

2 - «Às armas! Às armas! Pela Pátria, lutar! Contra os canhões, marchar, marchar!» - frases do nosso hino, como se sabe.

«Os das outras equipas não são adversários, são inimigos» - frase de um treinador português de sucesso.

«Temos de fazer mais faltas!» - frase de outro treinador português (embora de menos sucesso).

«Será uma partida de alto risco!» - frase repetida por responsáveis policiais a propósito de tudo e de nada.

«Será um jogo de vida ou de morte!» - frase dita por muita gente, a propósito do Portugal-Rússia.

«Ele fez bem em agredi-lo porque foi provocado» - frase dita por um dirigente (muito) «desportivo».

«Isto é uma guerra! Tenho de matar ou morrer! Vocês são espanhóis e eu sou português!» - frase dita por um famoso... brasileiro.

Nota: toda esta gente se queixa, sempre que necessário ou politicamente correcto, da violência no desporto - actividade que também é conhecida como «escola-de-virtudes».

3 - Não se percebe porque é que Portugal gasta tanto dinheiro com Scolari (ainda por cima, sendo estrangeiro, o dinheiro não deve ficar por cá)!

E digo isto porque, nos últimos tempos, tudo quanto é órgão de informação está atafulhado de comentadores-seleccionadores-treinadores que, apesar de só debitarem banalidades, fazem-no com o ar mais sério deste mundo - levando-nos a suspeitar que poderiam fazer melhor do que Filipão, e decerto muito mais barato.

O certo é que, embora essas pessoas sejam regularmente zurzidas pelo «Esteves», «não se enxergam». Assim, não há nada a fazer: é ouvi-los (ou lê-los) e segurar a barriga - devido ao riso.

4 - Se a Selecção perde, o Povo acusa: «ELES perderam!».

Se ganha, o Povo proclama: «NÓS ganhámos!».

5 - Apesar de, num só dia, ter conseguido a proeza de ver «um jogo e meio» (esteve no Estádio do Dragão e de seguida no da Luz!), Jorge Sampaio encara o «patriotismo futebolístico» com bastante lucidez e pediu aos portugueses que o seu entusiasmo não se perca «quando a bandeira nacional for apeada».

Na tropa, dizia-se «arriada», mas não faz mal. No fundo tem razão, e até foi boa «a piada»...


Publicado no "Diário Digital" em 23 Junho 2004

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