Colaborações no Diário Digital


A quota-parte

De vez em quando, já se sabe: lá vem à-baila a questão das quotas!

Em certos países, a discussão faz-se em torno dos diversos credos ou tendências religiosas; noutros, tem a ver com as etnias; noutros ainda, tem a ver com - pasme-se! - o aparelho reprodutor de cada um!

De facto, é para este último aspecto que remete a discussão sobre as percentagens de «homens» e «mulheres» num determinado órgão de soberania e até... em Universidades!

O pior é que, para que seja possível que a composição dos membros de uma determinada «agremiação» seja semelhante à da Sociedade em que se insere são precisas, pelo menos, duas coisas:

Boas estatísticas (para que haja valores actualizados e correctos) e bons matemáticos - para tentarem fazer as contas que isso implica.

Vejamos um caso dramático relatado no livro «Jeremias e as Incríveis Consultas do Dr. Reboredo» (*):

«Não sei se já alguma vez ouviram falar do estranho clube de cuja Direcção eu faço parte. Talvez não, pois é uma associação muito restrita, embora não secreta, como verão. Trata-se do CRFFP, o «Clube Recreativo Filarmónico e Filantrópico OS PRIMOS», e é preciso recuar bastante no tempo para o situarmos no devido contexto e entendermos a sua verdadeira razão de ser.

Tudo começou em 1895 (numa época em que as famílias eram grandes), e agrupava, aquando da sua fundação, 23 pessoas, todas elas primas e primos. Daí o nome, como bem se percebe e aceita.

Ora, durante algum tempo e pelo menos no início, sucedeu uma coisa muito curiosa:

Quer a quantidade de sócios aumentasse quer diminuísse, o número, propriamente dito, mantinha-se um número primo:

Numa altura eram 31; morriam dois em pouco tempo e ficavam 29; depois nascia uma revoada de garotos e o clube passava a ter 37...

E assim, dado que a coisa até tinha piada, procurou-se manter a filosofia do quantitativo.

E, mesmo quando, com o andar dos tempos, o espírito de clube familiar se perdeu, manteve-se o princípio do número de sócios ser primo. («Somos todos primatas!» - dizia o primo Rebordão, sempre bem-disposto).

Até aqui tudo bem.

Só que, ultimamente, apareceram uns patuscos com a teoria das quotas:

Segundo eles, o clube tem que ter X% de mulheres, Y% de simpatizantes da Académica e Z% de anões.

Mas acontece que (e aqui é que está o busílis...) um número primo, por definição, só é divisível por si mesmo e pela unidade.

Assim, teríamos de ter… fracções de pessoas!

Estava eu nestas elucubrações (a ver como é que ia arranjar 1/7 de um albicastrense e 1/5 de um benfiquista...) quando o meu primo Malaquias, acabado de chegar do karaté, se sentou ao pé de mim, esticou as pernas e, com um longo suspiro de extremo cansaço, fez saber ao mundo:

- Bolas, que estou todo partido!

A história até podia acabar aqui, mas não acaba.

É que, por uma natural associação de ideias, já eu estava a imaginar pessoas desmembradas e cortadas aos bocados quando o Malaquias, depois de se inteirar melhor da minha preocupação, comentou, levantando-se:

- Ora, isso não tem pés nem cabeça!


Publicado no "Diário Digital" em 16 Junho 2004

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