Carta(s) Branca(s)


Os nossos pilritos

No relato de eventos desportivos devia dizer-se «a equipa portuguesa» em vez de «Portugal». Mas o hábito está tão arreigado (essas coisas metem hino, bandeira e figuras do Estado) que temos de viver com ele. Curiosamente, quando as coisas correm mal (como no caso dos jovens que escavacaram o balneário francês), já se faz uma subtil distinção: «PORTUGAL ganhou (...) OS JOGADORES fizeram estragos».

A propósito: foi esclarecedor o que se viu na TV à chegada dos rapazes: numa metade do ecrã, íamo-los ouvindo dizer que não se passou nada; na outra, iam-se vendo imagens do que, de facto, fizeram. E essa cena trouxe-me à lembrança o autarca que, acusado de corrupção, bramou para os microfones da rádio: «Os factos são falsos!».

Já agora, não deixemos passar em claro o incrível espectáculo dos «responsáveis» que, comentando o comportamento daqueles que se comportaram como catraios, «desdramatizaram» e «minimizaram» o sucedido - só faltando dizer que teriam sido capazes de fazer o mesmo.

Bem sei que, no mundo da bola, as coisas obedecem a uma lógica muito própria. Talvez por isso, querer que certa gente diga (e faça) coisas sensatas, seja o mesmo que exigir a Santana Lopes que pare de nos moer o juízo a tentar convencer-nos de que pode vir a ser um bom Presidente da República. Mas como «quem dá o que tem, a mais não é obrigado», não há nada fazer. Aliás, essa verdade, aplicada a um arbusto chamado «pilriteiro», até veio a dar uma famosa quadra:

- Pilriteiro que dás pilritos,
Por que não dás coisa boa?
- Cada qual dá o que tem,
Conforme a sua pessoa.


Publicado no "EXPRESSO" - "Carta Branca", em 29 Novembro 2003

Página Anterior
Topo da Página
Página Principal
Página Seguinte